Resenha | Mulheres que correm com os lobos


É sobre as dores que as mulheres compartilham desde o princípio do mundo

É um resgate de histórias perdidas e silenciadas, representando a vida de milhares de mulheres que tiveram que conter seus desejos e ocultar seus sonhos e traumas para não serem excluídas da sociedade. Mulheres que se colocaram em segundo plano em suas próprias vidas, devido ao marido, pai, casa e outros. 

“Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem” é um livro escrito pela psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés publicado originalmente em 1922 e em uma nova edição em 2018, pela editora Rocco. A obra de 576 páginas, as quais estão divididas em 15 capítulos, aborda o arquétipo feminino através da interpretação de 19 lendas, contos de fadas e histórias antigas. Dentre elas, tem-se Barba-Azul, Patinho Feio, Sapatinhos Vermelhos e outras. Por meio das narrativas dos contos e análises teóricas, a autora tenta expressar como a natureza instintiva da mulher foi sendo domesticada com o passar do tempo, bem como o resgate do passado pode atuar como forma de atingir a liberdade. 

No primeiro capítulo, “O Uivo: a Ressurreição da Mulher Selvagem”, aborda-se como a mulher lobo é o espírito da grande mãe da natureza que recolhe os ossos dos animais que morrem e protegem-nos. Em “A Tocaia Ao Intruso”, conta-se a história do Barba-Azul, trazendo uma reflexão de como as mulheres, geralmente, são retratadas e tratadas como inocentes e frágeis e não como igual. No capítulo intitulado “A procura da nossa turma: A sensação da integração” a autora traz a famosa história do Patinho Feio. À primeira vista, entendido como um conto infantil, mas Clarissa apresenta o conto sob a ótica do deslocamento e do sentimento de pertencimento. 

Dessa forma, por meio de narrativas como pano de fundo e reflexões a partir delas, a autora constrói o livro. Outros contos e lendas são utilizados para abordar temas como aniquilação, perdão, liberdade, dores, criatividade, autoconhecimento, de forma a desvendar a figura da Mulher Selvagem. Clarissa utiliza da Mulher Selvagem como um espectro da personalidade, destruído com o tempo pela sociedade, que culminou na mulher domesticada. Para isso, ela trabalha com os arquétipos. Termo cunhado pelo psiquiatra e psicoterapeuta Carl Gustav Jung para designar conjuntos de imagens primordiais armazenadas no imaginário, que dão sentido aos complexos mentais e às histórias passadas entre gerações, formando o conhecimento e o imaginário do inconsciente universal. 

Ao ouvirmos determinada história, captamos uma mensagem principal: a autora tenta mostrar além disso, aquilo que não é recebido de primeira. Por exemplo, um dos arquétipos mais relacionado às mulheres é o da cuidadora. É a figura feminina quem cuida dos outros, que apresenta um instinto maternal e carinhoso. Mas elas não são apenas isso. A sociedade ainda é extremamente conservadora e uma mulher que age contra os padrões ou não apresenta um comportamento esperado é vista de forma imoral. 

Na analogia proposta por Clarissa, os lobos e as mulheres dividem certo vínculo psíquico ligado a ferocidade, graça e devoção ao parceiro e à comunidade, representando o conceito de Mulher Selvagem. O selvagem não é abordado sob o ponto de vista da violência ou opressão, mas como uma parte inerente da natureza interna, o lado primitivo. Por meio do contato com o primitivo, a mulher reconhece suas raízes evolutivas e determina como suas escolhas serão tomadas. É uma forma de reencontrar os princípios individuais e não reprimir suas vontades, de forma a libertar-se das convenções impostas pela sociedade. 

Alguns pontos merecem destaque, como a mistura de literatura com a teoria; utilizando de contos e histórias, o livro dá um respiro ao leitor. Outro ponto é a utilização de metáforas, a maior parte ligadas a natureza, enriquecem a leitura e tornam a assimilação de algumas reflexões mais fáceis. Um ponto negativo é a utilização de conceitos específicos da psicologia. Para um leitor leigo, os conceitos propostos, por vezes, dificultam o entendimento e tornam a leitura cansativa. 

Não apenas as mulheres, mas todos deveriam ler o livro. É uma leitura extensa e, por vezes, dolorida, mas necessária. É uma viagem ao passado com o objetivo de resgatar o amor próprio e de descobrir quem você é verdadeiramente. Para leitores mais conservadores, o texto pode causar estranheza. Para uma melhor compreensão, é necessário desprender-se de pré-conceitos e abraçar as reflexões expostas. 

Clarissa Pinkola é uma psicóloga junguiana, poeta e escritora norte-americana especializada em traumas pós-guerra, com ascendência mexicana e fascinada por lobos. Ela utiliza de costumes e histórias baseadas em crenças pessoais em sua obra a fim de desvendar a figura da Mulher Selvagem. É autora de diversos livros traduzidos para mais de 35 idiomas, dentre eles “A Ciranda das Mulheres Sábias: ser jovem enquanto velha, velha enquanto jovem”.

Resenha de Ana Clara Marcondes

Até a próxima!
Equipe CN.

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