Todas as cores do céu: um retrato do poder da amizade e da esperança


Alguns laços estão pintados no céu como as estrelas, e por mais nublado que ele esteja, essas relações sempre irão brilhar e conduzir-nos a um céu límpido

“A esperança é como um pássaro. Quer se manter em movimento, por mais que se tente aprisioná-la.”

Talvez essa seja uma das minhas frases favoritas do livro – ‘talvez’ porque esse é o tipo de leitura que cada página te presenteia com uma combinação de palavras daquelas para tatuar, seja na pele, seja no coração. Mas começo essa resenha com ela por outro motivo: sua capacidade de transmitir o que, para mim, é a mensagem principal da obra. A esperança. “Todas as cores do céu” foi escrito pela indiana Amita Trasi em 2017, chegou primeiro no Brasil com exclusividade para os assinantes da TAG Livros e foi publicado em 2019 pela editora Harper Collins. 

Amita conta a história de Tara e Mukta no cenário de uma Índia dos anos 90 dividida em castas, assolada pela pobreza e pela desigualdade social. O livro é escrito em primeira pessoa sobre a perspectiva das duas meninas, intercalando os capítulos entre a história de cada uma, mostrando, assim, quando seus caminhos se tocam e quando permanecem em rotas paralelas. 

“Sou uma Devadasi, uma escrava do templo. É o que estava no meu destino.” 

Mesmo antes dos 10 anos de idade, Mukta já sabe que seu destino está traçado. Ela pertence a uma casta chamada Devadasi, segundo a qual as mulheres devem se casar com a deusa hindu Yellamma e servi-la. Como? ‘Satisfazendo’ os homens que vierem procurá-la. Ainda criança, sem o ingrediente especial da infância – a liberdade de sonhar com o futuro – Mukta é explorada sexualmente. 

A prostituição era o seu destino antes mesmo que ela pudesse entender que tivesse um. Estamos falando de uma criança, portanto, de prostituição e tráfico infantil. Mas Tara também estava presente no seu destino. Assim que Mukta inicia-se no ritual milenar de sua casta, um homem – o pai de Tara – a resgata e a leva para morar junto com sua família. É o início da amizade entre Mukta e Tara. 

Por motivos que não tratarei aqui, Mukta é sequestrada e levada para longe de Tara, para uma dura realidade de tráfico infantil e exploração sexual que ainda hoje condena milhares de meninas a um destino de sofrimento e dor. A partir de então, podemos enxergar a história e o crescimento de cada uma das personagens. A procura de Tara pela amiga e o sofrimento de Mukta nos bordéis da Índia. Mas mesmo a distância não fora capaz de arrebentar o forte laço entre elas. 

Ao mesmo tempo em que Amita Tarsi, em “Todas as cores do céu”, consegue nos transportar para o cenário de uma Índia dos anos 90, presenteando-nos com cheiros, texturas e roupas da cultura do país; ela também nos aplica um colírio para temas que, muitas vezes, nos recusamos a ver: a prostituição, o tráfico de mulheres, a exploração sexual e uma estrutura social capaz de condenar uma criança a essa realidade antes mesmo de nascer. 

Mesmo tratando de temas pesados e indigestos, Amita consegue imprimir certa leveza em sua escrita, sendo delicada sem, no entanto, romantizar essa realidade. “Todas as cores do céu”, arrisco dizer, é, ainda, uma obra sobre perdão, amizade e esperança. 

“Acho que a nossa vida é como o céu. – Amma suspirou, ainda olhando para a cima. – Às vezes, Mukta, quando você olhar para o céu, ele vai estar escuro. Vai se perguntar se alguma coisa conseguirá tirar você da escuridão. Mas, acredite em mim, algum dia o nosso céu vai brilhar de novo. E vai ter a aparência e o cheiro de esperança. Não quero que se esqueça disso. Quero que tenha esperança, não desista.” 

Por Ana Clara Marçal
Ficha técnica 
Título: Todas as cores do céu 
Ano: 2019 
Páginas: 384 
Editora: HarperCollins 
Idioma: Português 
Autor: Amita Trasi 
Tradução: Caroline Chang

Até a próxima!
Equipe CN.

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