Série de reportagens: deficiência auditiva e visual

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Nos próximos meses, falaremos sobre deficientes auditivos e visuais, os desafios da falta de acessibilidade e iniciativas de inclusão 

Tudo comunica. Somos seres essencialmente sociáveis, comunicáveis. Cheiros. Sons. Imagens. Sabores. Texturas. A comunicação está em tudo. É sinestésica. Um barulho pode remeter a uma imagem. Um cheiro a uma cor. Uma imagem a um sabor. As sensações são inúmeras. O fato é que nos comunicamos diariamente. Emitimos e recebemos mensagens a todo instante. E todo processo comunicativo, através de qualquer meio, está sujeito a interferência de ruídos. No caso de pessoas com deficiência auditiva e visual, esse são acentuados pela carência de acessibilidade. 

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010, 45,6 milhões de brasileiros declararam ter algum tipo de deficiência. Desses, 6,5 milhões tem algum tipo de deficiência visual, sendo 528.624 incapazes de enxergar e 6.056.654 com grande e permanente dificuldade de enxergar. Já 10,7 milhões de brasileiros tem algum tipo de deficiência auditiva, destes, 2,7 milhões possuem surdez profunda. 

O Conectados News começa, hoje, uma série sobre acessibilidade no mundo do entretenimento, cultura e educação para pessoas com deficiência auditiva e visual. Para iniciar a série, conversamos com a fonoaudióloga Ana Paula Akaishi Santana e a oftalmologista Elaine Regina Ferraresi para trazer algumas informações sobre cada tipo de deficiência. Ressaltamos que esta é uma breve contextualização, sendo o tema muito mais amplo. Ao final desta matéria, deixaremos alguns links de sites que foram usados durante nossas pesquisas para quem quiser se aprofundar. 

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Deficiência auditiva 

São recorrentes as dúvidas quanto à nomenclatura correta a ser utilizada: surdos ou deficientes auditivos. Em leis antigas, usava-se surdos ou pessoas com deficiência auditiva, passando a imagem de dois grupos separados. Segundo a Lei 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência) utiliza-se “pessoa com deficiência auditiva para todos os surdos, falem Libras ou não.” Para o Ministério da Saúde, “surdez é o nome dado à impossibilidade ou dificuldade de ouvir”. 

O Ministério da Saúde classifica cinco tipos de surdez: ligeira, média, severa, profunda e cofose. Cada uma difere no grau de perda auditiva, sendo a última a “ausência total do som”. Há, assim, surdos oralizados (que falam Português), surdos sinalizados (que falam Libras) e surdos bilíngues (que falam Português e Libras), como explica a fonoaudióloga Ana Paula Santana: “A criança que implanta cedo tem condições de ser oralizada. Ela vai conseguir falar, ter linguagem, comunicação pela fala. Aí ela é considerada uma surda oralizada. Uma criança que nasceu ouvinte, aprendeu a falar e teve uma surdez pós-lingual também vai continuar falando depois que perder a audição e for feita a adaptação com o aparelho auditivo ou com implante coclear. Agora, uma pessoa que perdeu a audição pré-lingual não vai conseguir ser oralizada; depende do tempo que ela foi adaptada, reabilitada com aparelho auditivo ou implante.” Ela ainda ressalta que, mesmo um surdo oralizado, precisa de alguns apoios, como a leitura labial e as legendas. 
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Ana Paula Santana trabalha com diagnóstico auditivo, reabilitação com aparelhos auditivos e implante coclear e comenta seu funcionamento: “A pessoa que tem uma perda de grau leve a severo, conseguimos adaptar um aparelho auditivo e colocar uma amplificação, um microfone com um amplificador, que é o aparelho auditivo, para ajudar a escutar. Já o implante coclear é um processador que é colocado atrás da orelha; mas é quando a pessoa já não escuta nada. Então, a gente faz um implante e insere eletrodos dentro da cóclea para ele conseguir ouvir de novo direto pelo nervo auditivo.” 

Quanto à educação, a fonoaudióloga explica que “uma criança implantada pode ser inserida em escola regular, uma criança surda precisa ser inserida em uma escola de surdo para poder ter a educação de língua de sinais e gramática dentro da Libras.” Ela ressalta, ainda, que se deve entender cada criança com deficiência auditiva, seus graus de perda auditiva e a necessidade do apoio de uma pedagoga ou psicopedagoga. 

Com a pandemia da Covid-19, a acessibilidade ganhou novos contornos. O uso de máscaras, por exemplo, impede a leitura labial, muito utilizada pelos surdos. Além disso, a falta de legenda em muitos materiais audiovisuais e o desconhecimento da Língua Brasileira de Sinais (Libras) acentuam a carência de acessibilidade. 

Deficiência visual 

Os termos relacionados a deficiência visual são variáveis, dependendo do grau da doença. De acordo com a 10ª revisão da Classificação Estatística Internacional das Doenças e Problemas (CID-10), analisa-se o tempo que a pessoa teve de visão ao longo da vida. A cegueira é elencada em categorias, partindo da ausência leve (categoria 0), à cegueira total (categoria 5), como explica a oftalmologista, formada em Medicina pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Elaine Regina Ferraresi: “Se a extensão do campo visual for utilizada, uma pessoa com um campo visual menos que 10° de raio ao redor do ponto central de fixação, no melhor olho, deve ser considerada cega (categoria 3). O termo baixa visão, empregado na revisão anterior da CID-10, dever ser substituído por deficiência visual moderada e grave.” Ela ressalta, ainda, que as causas que podem levar a cegueira são variadas. 

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Os demais sentidos do corpo, como paladar, olfato, audição e tato, começam a ser usados com mais frequência. Quanto à acessibilidade, a médica oftalmologista aponta para a importância de trabalhar a autoestima da criança desde cedo, dar o máximo de independência e estimular a visão precoce e continuamente. Além de ter, em casa, condições adequadas de iluminação. “Aproximação de objetos e uso de objetos bem coloridos para chamar atenção das crianças pequenas são fundamentais”. 

“Na escola, permitir que a criança se sente próxima à lousa, fornecer materiais com letras grandes e papel fosco (para melhorar o contraste), ter os contornos dos desenhos reforçados com canetas de ponta mais grossa e explicar verbalmente e com calma as atividades e dar um tempo maior para que as realize. Diversos auxílios ópticos podem ser prescritos para ajudar a criança deficiente visual. Além dos óculos, telescópios são muito úteis para melhorar a visão de longe. Para a visão de perto, temos óculos com lentes especiais e lupas. Atualmente, outros recursos são os sistemas de videoampliação, lupas eletrônicas portáteis, sistemas de síntese de voz e softwares especializados que permitem mudar a fonte, a cor, o contraste, aumentar a área de trabalho e o texto. Uma ótima opção são os tablets e smartphones. Alguns exemplos de aplicativos úteis são ‘Be My Eyes’ (ajuda a descrever o objeto que aparece na tela do celular), Lupa com lanterna (amplia imagens e documentos de livros, jornais e papéis) e audiolivros”, finaliza. 

Próximos episódios 

No dia 11/11 falaremos de acessibilidade para deficientes auditivos e visuais no mundo do entretenimento e da cultura. No dia 25/11, você confere a acessibilidade na educação e, no dia 09/12, algumas iniciativas presentes na cidade de Londrina (PR). 

Links para ficar por dentro do assunto: 


#PraCegoVer:
Imagem 1: Foto ilustrativa, na qual apresenta uma mulher negra com um aparelho auditivo e, ao lado, um homem branco com cabelos vermelhos; ele está usando óculos preto escuros.

Imagem 2: Foto ilustrativa, com dados numéricos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre as deficiências visual e auditiva.

Imagem 3: Foto ilustrativa, na qual apresenta o desenho de uma orelha; o fundo é azul piscina.

Imagem 4: Foto ilustrativa, na qual apresenta o desenho de um olho; o fundo é de cor mostarda.

Reportagem de Ana Clara Marçal e Felipe Soares

Até a próxima!
Equipe CN.

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