Quebra da quarta parede: quantas paredes tem um filme?


O que faz de Enola Holmes uma personagem tão cativante? Sim, ela é meiga, confiante e ousada. Mas por que nos sentimos tão próximos a ela quando assistimos ao filme, se o mesmo não ocorre com outras personagens igualmente simpáticas? O segredo é que ela quebrou a quarta parede do cinema. 

Enola Holmes (Millie B. Brown) transforma os espectadores 
em amigos e companheiros de suas aventuras
Calma, não ache que eu enlouqueci com essa história de paredes. Não sou eu quem inventou isso. É um recurso muito usado desde a época clássica, o qual procura incluir o espectador na história. Sabe quando você tem a sensação de que uma personagem está falando diretamente com você? Ela olha nos seus olhos e dirige a palavra a você e não a qualquer outra pessoa em cena, quase como se ela soubesse que está sendo assistida. Essa é a quebra da quarta parede. 

Eu sei que esse nome é estranho, mas a sua explicação faz muito sentido. Esse elemento surgiu antes do cinema e era usado em apresentações teatrais. Agora imagine um palco: há os fundos da cena, onde fica o cenário (primeira parede); as saídas laterais do palco, nas coxias (mais duas paredes); e, por último, há a frente do palco, voltado para a plateia (a quarta parede). Normalmente, a história não ultrapassa nenhum desses limites, porém, é possível que haja uma ruptura da barreira entre elenco e público, estabelecendo interação entre ambos, de forma a transportar o espectador para dentro da história. 

Ainda não entendeu? Então aqui vai um exemplo fácil. Lembra da Dora Aventureira? Uma de suas marcas registradas é incluir as crianças na resolução de seus problemas, fazendo perguntas e pedindo ajuda. Nesses momentos, ela deixa a cena de lado para se comunicar diretamente com a câmera, dando espaço de fala ao espectador. E, assim, também faz Enola em seu filme ao romper com sua quarta parede, tornando não apenas o espectador parte da história, mas também um amigo e confidente da protagonista. 

É interessante perceber como nem sempre a quebra acontece da mesma forma. Ela pode ser sutil em apenas um olhar, como faz Fleabag em sua série e, num paralelo mais recente, Jojo Todynho no reality A Fazenda. Mas a quebra mais perceptível está quando a personagem de fato se comunica com o observador, convocando para que ele participe da história - ainda que passivamente - como é o caso de Enola. 


Em casos mais carregados, não apenas a personagem tem consciência de que está sendo observada, como também tem a consciência de que está em um filme, de que é fictício - uma verdadeira derrubada da quarta parede. Isso pode ser na animação A Nova Onda do Imperador, por exemplo, em que o protagonista Kuzko tem a liberdade de pausar e avançar cenas que lhe convém, pois ele sabe que tudo é apenas um filme.

Um simples olhar é o suficiente para que Norman Bates 
(Anthony Perkins) cause calafrios ao público

A quebra da quarta parede é conhecida por ser um recurso utilizado principalmente na comédia, vide o fenômeno Deadpool, que apresentou a forma de contar uma história para muita gente. Mas se engana quem pensa que a quarta parede é usada apenas no humor. Esse elemento pode ser decisivo em tramas de terror e suspense, fazendo com que o próprio espectador tema a presença de uma ameaça, como Norman Bates de Psicose, por exemplo. 

De qualquer forma, essa ruptura, se bem colocada, é capaz de conectar personagens e público, a ponto de criar fortes vínculos afetivos (ou desafetivos). Agora, da próxima vez que você tiver a impressão de que um filme fala diretamente com você, já sabe o porquê, não é mesmo, caro leitor? (você percebeu o que eu fiz aqui, né?)

Quer conhecer mais filmes com a quebra da quarta parede? Então confira o episódio "Quebra da Quarta Parede TOP 7", no SE7ECast. 

Até a próxima!

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