O heroísmo embebido de inferno - O Diabo de Cada Dia


Com elenco forte e, ainda assim, surpreendente, O Diabo de Cada Dia (The Devil All The Time), produção original Netflix 2020, é um tiro no seu estômago nos mais diversos sentidos possíveis. Esse suspense sangrento reuniu um elenco improvável e com cara de blockbuster adolescente-geek para uma obra de violência sóbria e enredo doentiamente plausível. Com destaque para Tom Holland (Peter Parker em Homem-aranha: De Volta ao Lar), Bill Skargård (Pennywise, o Palhaço em "It - A coisa"), Sebastian Stan (Soldado Invernal em "Capitão América: O Primeiro Vingador") e, principalmente, Robert Pattinson (Edward em "Crepúsculo" e, futuramente, Batman), a primazia pela boa atuação em tela é incrível. Digo, sinceramente, que não fui capaz de reconhecer alguns atores em cena, dada a competência de seu trabalho e caracterização.

Nesse roteiro, somos apresentados a Arvin (Tom Holland), um jovem órfão no Sul dos Estados Unidos do século passado, assim como a todas as jornadas paralelas que, por acaso, constroem Arvin com a mentalidade que viemos a conhecer ao final da trama. São diversas histórias independentes que transitam entre passado e presente, desencontrando-se e cruzando-se novamente nos momentos de maior tensão. 


Os irmão Antônio e Paulo Campos, diretores e roteiristas, merecem cada palma por adaptar de forma assertiva a obra cruelmente sensível de Donald Ray Pollock, autor do livro homônimo que deu origem ao filme. E vale lembrar que os irmãos têm pé em nosso país, são filhos do jornalista Lucas Mendes. Gol do Brasil! 

Bill Skarsgård como Willard, o 
fanaticamente cristão pai de Arvin

Margeando constantemente a reflexão sobre a moral cristã, o filme triunfa ao construir algo que nem sei se me arrisco a chamar de anti-heroísmo, mas uma identidade do gênero que atua fanática e vingativamente. O ponto é que cada personagem nessa trama porta suas próprias crenças e convicções (sendo a igreja um fator muito importante na narrativa de todos), e está sujeito a fazer de tudo para conquistar aquilo em que acredita. Porém, a moral de todos já está tão deturpada que qualquer tipo de credo é desfigurado em violência - e espere fortes pancadas desta última durante sua sessão com esse filme. 

A morte se torna algo quase que comum neste circo de horrores, de maneira que não resta mais nada a fazer senão torcer pelo assassino que o mais simpatiza. E, acredite em mim, você fará isso inconscientemente; e quando perceber que, assim como o "herói" de sua escolha, você deixou os fins justificarem os meios, será tarde demais. 

A narrativa pode ter um ritmo denso e arrastado na primeira metade, mas quando as coisas começarem a esquentar, o bicho - ou devo dizer, a besta - vai pegar. Quanto mais os núcleos narrativos se entrelaçam, maior a angústia sobre o telespectador (o que, aqui, é um recurso fenomenal). Seria o estopim para que a trama tomasse o rumo agressivo que levou a chegada do reverendo (Robert Pattinson), que, diga-se de passagem, foi a participação que mais me deixou boquiaberta. 

Sebastian Stan, irreconhecível como o Sheriff Lee. Foi a segunda
 opção para o papel, substituindo seu amigo Chris Evans

Mas não venha me dizer que essa segunda metade do filme é, em qualquer nível, inspirada na violência cômica do grande Tarantino. Aqui, a agressividade é brutal, crua e livre de humor (sendo por vezes atenuada por cortes de câmera, afinal, ninguém quer vomitar no meio do filme, né?). 

Enfim, todo esse sangue pautado no "bem maior", na ética pessoal de cada um, apenas mostra que o bem e o mal andam bem mais próximos do que parecem, e basta um desejo visceral para que o homem transforme sua própria imagem no diabo e sua história no inferno. 

*Todas as fotos foram retiradas da Internet

 

Não deixe de conferir o episódio "O Diabo de Cada Dia - Sob a Película" no SE7ECast (clique aqui).
Até a próxima!

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