Holocausto Brasileiro: a história vivida além dos livros didáticos


A jornalista Daniela Arbex traz em ‘Holocausto Brasileiro’, o relato de homens e mulheres que tiveram suas vidas transformadas após o “Colônia” 

Muitas vezes resumimos a história do Brasil somente aos livros didáticos e aos poucos relatos de pessoas que viveram em anos anteriores aos nossos, como aos pais e avós. No entanto, o Brasil já foi palco de grandes atrocidades contra a vida humana. Saindo mais desse plano que já conhecemos sobre a independência, liberdade dos escravos, usurpação e exploração dos recursos no período de “colonização” europeia, a queda dos reis e até mesmo de presidentes já no plano da república, o Brasil ainda esconde muita coisa. 

No livro ‘Holocausto Brasileiro’, de Daniela Arbex, a jornalista conta os relatos de como o país, entre os anos de 1903 a 1989, conseguiu juntar a sua história, um genocídio de 60 mil pessoas. Pessoas que eram saudáveis, tinham famílias, filhos e poderiam ter uma vida bela, mas que foi interrompida pelas autoridades do país, junto aos chefes de famílias que baseavam o cidadão correto na moralidade cristã. 

O Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, conhecido como Colônia, em Minas Gerais, recebia centenas de pessoas todos os dias para internação. Arbex relata em seu livro-reportagem que a maioria das pessoas que chegavam até o local não apresentavam diagnóstico de alguma doença mental. Homens, mulheres e crianças tornaram-se incômodos para as suas famílias, as quais detinham poder econômico e político na época, ou apenas estavam no lugar errado e na hora errada. Homossexuais, prostitutas, epiléticos, mães solteiras, mulheres que foram abusadas pelos patrões, moças que haviam perdido a virgindade antes do casamento, mendigos e até pessoas tímidas foram alvo dessa brutalidade. Internados à força, essas pessoas foram submetidas a condições bárbaras e animalescas, com o consentimento do Estado, de médicos, funcionários e até da sociedade civil. 

Vivendo um por cima do outro, esses homens, mulheres e crianças chegaram a níveis extremos para sobreviver. Nas noites mais frias do estado mineiro, os pacientes aprisionados eram deixados ao relento quase que nus. Assim, muitos morreram de fome, frio, doenças e maus tratos. 

O mais ensurdecedor é que essas mortes foram lucrativas para o Estado, pois entre os anos de 1969 a 1980, cerca de 1.800 corpos foram vendidos para as grandes universidades de medicina do país, sem nenhum questionamento sobre a origem e a disponibilidade de todos esses cadáveres. Mesmo com as denúncias, nos anos de 1960, mais de 60 mil internados morreram em “posse” do Colônia. 

O trabalho de Daniela Arbex é tão conciso e tão rico de detalhes, fazendo com que, mesmo de forma involuntária, questione-se: “será que isso ainda acontece hoje e a gente não sabe?”. A jornalista trouxe relatos reais, indo em busca dos sobreviventes do antigo Hospital Psiquiátrico de Barbacena. A obra é composta por imagens reais da época, feitas ao longo dos anos por Roberto Fulgêncio, Ronaldo Simões Coelho, Napoleão Xavier e outros fotógrafos e jornalistas que passaram pelo local. As fotos dos arquivos pessoais das vítimas desse genocídio trazem comoção, fazendo, muitas vezes, sentir calafrios e entrar de cabeça nesta triste e trágica história do Brasil. 

Os relatos das vítimas têm uma carga de emoção muito pesada. Histórias como a de dona Geralda Siqueira Santiago, estuprada aos 14 anos pelo patrão da casa onde trabalhava, foi mandada para o Colônia para que o restante da família não soubesse da gravidez. Após dar à luz, foi separada de seu recém-nascido e o reencontro aconteceu somente em 2011. Foram 45 anos vivendo separada do filho, imaginando quais os rumos que a sua vida teria tomado ao longo desses anos. Há também a história de Adelino Ferreira e Nilta Chaves que se conheceram naquele lugar frio e escuro, sem vida e sem esperança, mas por decisão permaneceram juntos e cuidaram um do outro até se casarem em 2005. 

Daniela Arbex ficou reconhecida nacionalmente pela sua obra, sendo recebida também com várias críticas dos principais jornais da américa latina e do mundo. O Le Monde Diplomatique disse que: “embora o foco principal sejam as vítimas do horror durante décadas, o livro faz um estudo completo do hospital, de seus funcionários, algozes, cúmplices e do modus operanti do genocídio, além de um rigoroso trabalho de investigação jornalística”

Todos os que passaram por aquele lugar obscuro e cheio de propósitos maldosos saíram marcados de alguma forma. Mesmo os funcionários que eram contratados para determinadas funções, mas que, também, atuavam em outras e, na maioria das vezes, eram coniventes com toda aquela situação. O que acontecia no Colônia ficava no Colônia. Outros sucumbiram ao peso da consciência e saíram logo que entraram. Os pacientes, que foram as maiores vítimas dessa absurda história do Brasil, os que conseguiram sair, uma nova vida pôde ser recomeçada. No entanto, aqueles que não tiveram a mesma sorte, tornaram-se apenas uma parte do genocídio no país. 

O livro vai muito mais a fundo de tudo o que já foi dito. As imagens do local, das vítimas, dos funcionários, famílias e autoridades podem contar sobre essa brutalidade muito mais do que estas palavras que você está lendo. O Holocausto Brasileiro é uma de muitas outras situações absurdas que foram escondidas de nós. Foi preciso que Daniela Arbex fosse ao mais profundo do profundo, resgatando memórias, histórias e pessoas que se foram pela maldade causada pelo coração do homem com a síndrome do poder. 

Histórias como essa são contadas para que não se repita algo parecido no futuro. Esse trabalho foi tão bem feito por Arbex, que o livro chegou a mais de 300 mil exemplares vendidos em todo o país e venceu o Prêmio Jabuti de 2014. A jornalista traz consigo outras grandes obras como ‘Cova 312’ e ‘Todo dia a mesma noite’, ambos livros-reportagens. Tudo para mostrar que a história do Brasil não está somente e de forma exclusiva nos livros didáticos, ela vai muito além de nós e do que acreditamos ser o Brasil de fato. 

De modo particular, o livro causou-me sensações e sentimentos inesperados como enjoos, dores de cabeça e até uma série de pensamentos profundos sobre o que é realmente ser um bom cidadão e o verdadeiro significado de ser humano. A obra é ótima para tirar as nossas vendas sobre o comodismo social, onde o meu mundo e as pessoas com quem convivo estão bem e, consecutivamente, o resto do mundo também está. Ainda não tive a oportunidade de ler as demais obras da autora. No entanto, ‘Holocausto Brasileiro’ é uma boa forma de dar o ponta pé inicial para essa desconstrução de realidade social perfeita. Daniela Arbex também me fez perceber que a Alemanha não está do outro lado do mundo, muito pelo contrário, ela está a poucos quilômetros de nós e que o Auschwitz brasileiro também existiu. 

Ficha técnica:
Autora: Daniela Arbex
Editora: Geração Editorial
Páginas: 253
Ano: 2013

Até a próxima! 
Equipe CN.

0 comentários