Uma série de outro tempo

Se tem algo que eu posso dizer para o convencer a assistir That ‘70s Show, é esta: Eu assisti até o final. Pode não parecer muito. Quem nunca maratonou uma série e em poucas semanas já a tinha completado? Bem, eu não. Como uma grande amante do cinema, tenho gosto pela sequência começo-meio-fim. Mas em séries, me sinto presa a uma história de começo-meio-meio-meio-meio e o fim que nunca conheço, pois minha paciência se esgota antes de eu conseguir chegar lá. Além disso, ainda sou apegada aos seriados que marcaram minha adolescência e nada parece chegar aos pés deles: nenhuma ficção substituirá Doctor Who, nenhum drama adolescente será mais dramático que The Vampire Diaries e nenhuma comédia preencherá o vazio após Friends. Mas se você procura por uma sitcom inteligente, de ritmo leve e personagens cativantes, That ‘70s Show dá conta do recado. 

A premissa é de fato simples: seis amigos do ensino médio e suas famílias dividem crises na pequena cidade fictícia de Point Place, Wisconsin. Mas o diferencial já prometido em seu título é que, apesar de ter transmitido oito temporadas entre 98 e 2006, essa história se passa nos anos 70. Todas as referências musicais, de moda e comportamento o transportam para uma das décadas mais intensamente culturais e psicodélicas do século passado – o que me traz uma estranha nostalgia de um tempo em que eu não vivi. 

Elenco principal de That '70 Show. Reprodução/Internet

Se não fosse isso suficiente, o desenvolvimento e ritmo da narrativa não dão margem para o tédio. As sequências são sempre bem ritmadas e o enredo dinâmico. Há uma trabalhada criatividade na construção das cenas, que dão grande espaço para o imaginário tanto das personagens quanto da produção. É comum que imagens e paródias que se passam apenas dentro da cabeça dos jovens se confundam com a realidade – o que também pode ser visto como um pouco da psicodelia residual dos inúmeros baseados fumados no “círculo” do porão da residência dos Forman, família pivô da narrativa. 

O tanto de risada que você vai dar com essa turma é proporcional ao quanto você se envolverá com as personagens. Só posso aplaudir ao casal Turner e a Mark Brazill por terem criado personalidades tão humanas e cativantes para esse show. Todas passam longe de ser perfeitas – e isso é perfeito. É impossível não se identificar com seus pensamentos familiarmente problemáticos. Posso dizer com tranquilidade que toda a trama gira em torno das inseguranças e egos. Nem um pouco planas, a cada episódio descobrimos um pouco mais sobre a mente (e por que não dizer alma?) dessas personagens, conforme mais se revelam e se desenvolvem. 

Devaneios e paródias que referenciam símbolos culturais

É certamente emocionante acompanhar três anos de suas vidas e perceber seu amadurecimento. E sendo uma série de temática adolescente, é claro que assuntos como estudos, o primeiro amor, o primeiro emprego e a relação com a família não poderiam ficar de fora. Mas a forma como That ‘70s Show os aborda diferentemente de qualquer padrão dá o ar de imprevisibilidade – você nunca sabe o que poderá acontecer na próxima temporada. É interessante como no meio de tudo isso o acaso tem grande papel, mostrando que nem tudo na vida segue conforme o planejado, ainda mais quando se fala de jovens prestes a começar a vida adulta, perdidos em suas próprias escolhas.

Fora suas personalidades envolventes, as personagens aqui também servem como retrato dos tipos, dos movimentos e insurgências da década. Eric Forman, protagonista da trama, por exemplo, representa o princípio da cultura geek, a paixão pelos épicos como Star Wars e Homem-Aranha. Já Kitty e Red, os pais de Eric, simbolizam o conservadorismo da Geração Silenciosa, os nascidos entre os anos 20 e 40 e todos os seus valores. Donna Pinciotti, por sua vez, personifica tanto o fortalecimento do feminismo quanto a relevância da rádio à época, enquanto Jackie Burkhart e Fez dão forma aos amantes da Disco Music. Assim, Steven Hyde é a cara da subversão aos bons costumes e do Rock n’ Roll e Leonard “Leo” Chingkwake, chefe de Hyde, tem o papel de membro da comunidade hippie. 

Entretanto, o espelhamento dos costumes dos anos 70 por muitas vezes se mescla a crítica social, mas beira os pensamentos ainda presentes na virada do milênio. É difícil dizer quando a série quer representar como eram os pensamentos da época ou quando a série é um reflexo da realidade. Como é de se esperar de séries produzidas até a década atual, That ‘70s Show tem escassa e questionável representatividade das minorias; o tipo de coisa que talvez aos olhos dos anos 90 não fosse nada demais, porém agora, 20 anos depois, vejo que nem tudo envelhece como vinho. 

Elementos da decoração e cenário
para representar os anos 70

A narrativa apoia-se muito em estereótipos para fins cômicos. É o caso da figura masculina, sendo quase sempre baseada em homens malas e insensíveis, ao passo que as figuras femininas são majoritariamente tapadas e fúteis. Não só, quando Donna ou Kitty quebram com esse padrão e se mostram mulheres inteligentes e empoderadas, são taxadas de masculina e antiquada, respectivamente (e é claro que eu compro essa briga para mim, mas acho que é apenas a radialista interior de Donna que se identifica com minha podcaster interior, pseudorradialista do século XX). Além disso, mesmo as mais feministas das garotas se sujeitam a relacionamentos tóxicos, amigos assediadores e até mesmo ao voyeurismo (sim, doentio) fazendo pouco caso sobre. E muito me espanta que ninguém comente sobre decisões inúteis ao enredo que apenas servem aos olhos dos caras, como quando Jackie arranja um emprego no shopping e Donna é matriculada em uma escola só para garotas – o que não adiciona nada à história fora o fato de que as duas passam a constantemente desfilar pelo cenário com uniformes de minissaia. 

Quanto a representação de outras nacionalidades, as personagens podem mostrarem-se xenofóbicas: personalidades de descendência europeia, como a família Pinciotti, ou latina, a exemplo de Fez, são vistos como não pertencentes à terra estadunidense e de comportamento subdesenvolvido. Com a representatividade negra, a história não é diferente. As poucas personagens pretas são constantemente lembradas de que são as únicas personagens pretas. E repito que não é fácil diferenciar quando tais apontamentos são efeitos que caracterizam os anos 70 de quando são reflexos da mentalidade da produção. 

Para quem entende que uma peça televisiva é um fruto de sua época, tais fatos são interessantes para se interpretar e refletir. Eu particularmente gosto de comparar como as coisas eram com como as coisas são – ou deveriam ser – e sinceramente isso não estraga a minha experiência de assistir a série. Mas devo dizer que a um adolescente de pensamento tradicionalista com seus 14 ou 40 anos jamais recomendaria That ‘70s Show. As falas e trejeitos apresentados na série seriam um péssimo exemplo a quem não consegue desvincular realidade de ficção, passado de presente. Mas se você, leitor, procura por algo repleto de ficção, drama e muita comédia e, considera a si mesmo uma pessoa capaz de assistir a um show com consciência de suas simbologias, tenho certeza que That ‘70s Show não o chateará em nenhum segundo, a não ser ao final, quando você tiver que se despedir.

Não deixe de conferir o episódio "That '70s Show - Sob a Película" no SE7ECast (clique aqui).

0 comentários