Que haja mais de nós!

Hoje parece óbvio, mas dizer que representatividade importa é porque ela realmente tem seu peso dentro da nossa sociedade. Na cultura pop, o papel da representação vai muito mais além do aparecer em filmes, séries e músicas. A cultura pop é muito mais do que isso. Ela conversa com todos os tipos de pessoas e de todas as formas possíveis. 

Quando falamos em representatividade, não estamos falando do que está acontecendo agora, mas do vai acontecer no futuro. Levando isso em consideração, para ver o que vemos hoje no passado (não tão distante), foi exigido muito mais do que pensamos ter sido. 

Dar o espaço e ampliar as vozes vai de encontro ao lugar de fala. Dentro do cenário do entretenimento, nada que se diz representativo virá de forma fácil. É explícito como é preciso esmurrar muitas portas para conseguir o mínimo de espaço possível. Há uma falsa simetria que vive nos rodeando o tempo todo e que nos faz pensar que “as coisas estão mudando”. Mas não é bem assim. 

E, falando em cultura pop, me refiro a indústria como um todo: a música, as grandes produções de filmes e séries, o mercado e quem consome esse tipo de conteúdo. O Pantera Negra é 1% da representatividade que temos nos filmes, Beyoncé é mais 1% na música. Com a recente perda de Chadwick Boseman, que faleceu no mês de setembro, aos 43 anos, senti como se a perda fosse próxima (mesmo não sendo). A potência desse herói teve uma carga de importância tão grande a ponto de fazer com que as pessoas se reconheçam através das telas. 

Eu tenho 20 anos e conheci o personagem do Pantera com 18. Cresci vendo Capitão América, um homem branco, estadunidense, dentro de um padrão de beleza muito diferente do meu. Quando tive a oportunidade de ver alguém semelhante a mim em cor, protagonista e que provavelmente iria carregar uma sequência de filmes futuros nas costas, eu pirei. O primeiro filme do Pantera Negra havia sido lançado e eu estava em viagem, me recordo de ter visto o trailer e achado incrível, mas a minha onda mesmo era o Capitão América e só isso importava. Mas por força do destino – vamos assim dizer – eu acabei sem opção e só me restou esse filme. Entrei uma pessoa e sai outra totalmente diferente. 

O filme arrastou pessoas como eu pelo mundo inteiro, a representatividade em melanina era tão forte que escorria pela tela. Hoje eu me pego pensando: “se pra mim, com 18 anos na época, esse filme teve um peso enorme, fazendo com que eu repensasse tudo sobre mim, imagina para uma criança que está crescendo com essa referência e se reconhecendo ali? O que ela pode fazer no futuro sabendo que é dona de si e que traz consigo um sangue real?”. ISSO FOI FEITO PARA MUDAR O MUNDO. 

Eu já disse em textos anteriores que o entretenimento é fundamental para a criação do imaginário humano e, justamente por isso, a estética e a ética andam lado a lado. São itens que não podem ser desvencilhados. E com Beyoncé não é diferente. Uma mulher negra, ícone do pop mundial, é exceção - até porque quantas “Beyonces” você vê hoje por aí? - e isso não a faz menos importante, muito pelo contrário, a faz referência. 

Crescer tendo pessoas em quem se inspirar te transforma e te faz pensar, ter outra perspectiva de mundo, com possibilidades infinitas, mesmo vivendo em um mundo tão cruel. Que tenhamos mais pessoas que inspiram, mais Beyoncé, mais Chadowick Boseman, mais Djamilas e muitos mais de nós! Sempre!

0 comentários