Resenha | 1984 de George Orwell


Baseado numa realidade distópica, o livro de George Orwell, ‘1984’, conta sobre uma sociedade regida pelo totalitarismo, na qual o controle do pensar é a base de tudo. Apagar o passado é fundamental. No presente, nesse tipo de regimento social, busca-se controlar o futuro. O passado, aniquilado por ideologias políticas, manipulações de discursos, diálogos meritocráticos, alienação da população e ultraconservadorismo, torna-se a veia pulsante desta trama. 

O autor dá o pontapé inicial contando sobre o cotidiano de Winston Smith, homem de meia idade que trabalha em um dos departamentos do Ministério da Verdade. Pertencente a uma engrenagem muito maior, Winston passa questionar sobre sua existência e sobre tudo o que está ao seu redor. Na cidade de Londres, onde se passa a história, tudo e todos são vigiados e controlados pelo Grande Irmão (Big Brother), através das teletelas. “Até na moeda os olhos [do Grande Irmão] perseguia a pessoa. Nos selos, nas capas dos livros, em bandeiras, em cartazes e nas embalagens – em toda parte” (1984, p.38). Ou seja, o Grande Irmão te escuta, sabe onde você está e com quem está. Não há saída. 

O controle sobre os pensamentos da população é o pilar principal do Partido. Quem pensasse de forma contrária ao Grande Irmão, era levado pela Polícia das Ideias e punido. O lema adotado pelo Partido desde sua instauração era em “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força.”, e estava sempre ligado a imagem do Grande Irmão que tudo via e sabia. 

Após a revolução e instauração do Socing – regime adotado pelo Partido – o planeta havia se redistribuído em três grandes impérios, sendo a Ocêania o maior de todos, era integrado pelas antigas Américas (Central, Norte e Sul), Austrália, parte do sul da África e a Inglaterra. A Eurásia, segundo maior, era formada pela Europa, Rússia e pequena parte da Ásia, e a Lestásia, a menor, incorporada pela China, Japão e parte da Índia. Dentro do livro, os impérios sempre estiveram em guerra, principalmente a Ocêania contra as demais, para disputar o território central e norte da África. 

A sociedade da “oceânica”, onde acontece o desenvolvimento da história, é bem dividida em hierarquias e aparelhos governamentais regidos pelo Partido. O autor faz a denominação de forma bem irônica no livro, sendo que os nomes são totalmente contrários às funções. Por exemplo, o Ministério da Verdade era responsável pela falsificação de documentos e tudo que fizesse referência ao passado. Esse setor tomava como base, a partir do Grande Irmão, a teoria de que “quem controla o presente, controla o passado. Quem controla o passado, controla o futuro”, por isso a aniquilação e falsificação de documentos referentes à história antes da revolução. Havia, também, o Ministério da Paz, responsável pela guerra contra as outras nações, o Ministério da Punjança (ou Riqueza) responsável pela fome e economia totalmente distorcida, e, por último, o Ministério do Amor, que cuidava da população, monitorando seus movimentos e pensamentos através da Polícia da Ideias. 

A população também era categorizada e dividida. Havia os Proletas, a base e força de trabalho que compunha 85% da população, o Partido Externo, que compunha 13% e era com uma classe média dos tempos atuais, e a Elite do Partido que era de 2% ligados as veias ideológicas e autoritárias do Socing. 

A partir do momento que Winston passa a se questionar sobre tudo a sua volta, principalmente as coisas relacionadas a antes da revolução e a proibição do livre pensar, o rapaz se encontrou em um dilema. Sabendo que haveria punição, caso fosse descoberto através das suas expressões faciais ser visto escrevendo em alguma coisa, a Polícia das Ideias e o Grande Irmão iriam saber que havia se voltado contra o regime. Logo, seria expurgado, tendo todo seu histórico dizimado, como se não houvesse existido. 

Na cidade Londres, onde se passa a história, o pouco contato humano era essencial para o controle da sociedade, pois se não houvesse conversas tidas como intelectuais, e não as corriqueiras do dia a dia, mais fácil era a dominação. O’Brien trabalha no mesmo prédio que Winston e, através de uma única troca de olhares, ele passou a ser para Winston a luz no fim do túnel para se libertar do regime. A garota que via como inimiga torna-se sua amante as escondidas, pois o afeto não era permitido. O intuito dos casamentos dentro do regime era somente para procriação, sem laços afetivos. Dessa forma, o amor, traição e desconfiança movem a trama até a última página. 

A obra faz paralelo, quase que perfeito, com muitas das questões do século XXI. Como, por exemplo, a privacidade e a vigilância constante por meio dos aparelhos de comunicação, a manipulação dos discursos políticos, a falsificação de dados e informações, o controle sobre a história, a formação da base social através do medo de se rebelar contra governos, o conservadorismo em essência e outros assuntos muito pautados hoje em dia. O intuito de George Orwell, neste livro, foi de tratar como a liberdade de pensamento é importante para a formação da pessoa humana, da pessoa política e como a história é essencial para a construção de um futuro melhor e menos ditatorial.

Resenha de Felipe Soares.
Até a próxima!

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