A música em tempos de quarentena


Independente do gosto musical, cada pessoa tem uma trilha sonora favorita que embala os acontecimentos da vida, sejam eles alegres ou não 

Entre os dias tristes e felizes, ela está lá. A música faz parte de nós. É ela quem embala a trilha da ‘vida’. Podemos ouvi-la tocando nas ruas, em carros, celulares, eventos, em nossa rotina caseira, e, principalmente, neste momento de pandemia do novo coronavírus. Muitos mudaram suas rotinas e tiveram que se reinventar. Mas a música continuou presente. Para muitos indivíduos, é impensável realizar alguma atividade sem uma playlist. E temos uma para cada momento: desde tomar banho, café da manhã, percurso para o lugar que devemos ir e, por aí vai, embalando nossos compromissos. 

Com a pandemia da Covid-19, entre escolas e universidades fechadas e home office, houve um aumento significativo de assinaturas nas plataformas de streaming e consumo de lives no YouTube. Segundo uma consultoria feita pela Counterpoint Research, serviços como Spotify, Apple Music, Amazon Music, entre tantos outros, alcançaram cerca de 394 milhões de assinantes neste período, o que revela um aumento de 35% em comparação ao ano anterior. 

Segundo estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e outras instituições de pesquisas, os dados apontam que a qualidade mental tem melhor desempenho quando é necessário fazer tratamentos que envolvam música. Com ela, nós sentimos diversas emoções, positivas e negativas. E o cérebro é o responsável por causar esses sentimentos, uma vez que produz substâncias que podem ajudar na redução de estresse e ansiedade, por exemplo. 

De acordo com a musicoterapeuta e psicóloga, mestranda em Ciência da Reabilitação, Gislaine Moreira Matos, a música impacta o ser humano de forma positiva ou negativa, sendo capaz de provocar emoções em nosso cérebro. “Como a música é um dos estímulos que mobiliza o cérebro como um todo, podemos dizer que ela pode mobilizar todas as emoções. A interpretação da música acontece no hipocampo, onde também então nossas memórias afetivas. Por isso, ao ouvir uma música, rapidamente interpretamos como boa ou ruim, nos remetendo a algum momento vivido. Assim, a música, quando tem significado, sentido e que faça parte da identidade sonora da pessoa, pode ser um estímulo que produz endorfina, serotonina e dopamina. Mas também, pode ser um estímulo negativo, no qual irá produzir hormônios do estresse, como por exemplo, a adrenalina, que é quando a pessoa ouve por um período músicas que a desagradam, que não trazem significado e que não faz parte da história de vida da pessoa”. 

Dessa forma, não é todo tipo de música que leva à redução de estresse ou ansiedade. Uma pesquisa realizada pela Trends in Cognitive Sciences revelou que as músicas que possuem letras podem reduzir a performance mental. Em contrapartida, trilhas instrumentais podem dar um grande salto na produtividade individual, podendo variar de pessoa para pessoa. Portanto, os benefícios da música são inúmeros, podendo ajudar na concentração, memória, humor e atenção.
“A música permite que a criança brinque, dentro de nós; que o monge dentro de nós reze, que o jovem dentro de nós dance e que o herói dentro de nós supere todos os obstáculos, ou quase todos” (Don Campell). 

 A ARTE COMO REFÚGIO 

Segundo a psicóloga e especialista na área de aprendizagem, Mariana Laís Batista, com a pandemia, os casos de ansiedade e estresse aumentaram, deixando o indivíduo em estado de “alerta”, algo que antes era vivido apenas em algumas situações específicas. “Indica-se sempre buscar auxílio de profissionais de saúde quando a ansiedade e o estresse geram sintomas físicos e psíquicos. Algumas mudanças na rotina e novas práticas e hábitos também podem ajudar”. 

Mariana também apontou que o aumento na procura pelas artes, de modo geral, fez com que muitas pessoas voltassem a resgatar antigos hábitos e gostos artísticos, os quais aprenderam do zero ou aprimoraram essas habilidades, principalmente durante o isolamento, utilizando-se da arte como entretenimento (desde as artes visuais, música e dança). “Focalizando na música, tenho acompanhado, em redes sociais, como os artistas tem se reinventado para chegar até seus públicos, e como novos artistas tem tirado os planos do papel”, disse. 

Para os ouvintes, “a música tem o poder de evocar memórias e eliciar emoções, isso porque música, emoção e cérebro se conversam. Estudos apontam que a música pode despertar emoções em seus ouvintes, gerar prazer, diminuir o estresse, reduzir níveis de ansiedade, estimular a comunicação, aumentar a autoestima e autoexpressão, além de promover a reflexão sobre as novas sensações”, elucidou Batista. 

MUSICOTERAPIA NA SAÚDE 

A musicoterapia é uma ciência que busca tratar os pacientes através da música. A musicoterapeuta Gislaine Moreira Matos explica que essa ciência é uma área do conhecimento com base epistemológica em conjunto com teorias e práticas (métodos, técnicas e procedimentos) que estuda o efeito do som no organismo. “É uma profissão da área da saúde que atua desde a prevenção até o tratamento e reabilitação de doenças ou mal-estar biopsicossocial, utilizando as experiências sonoras musicais (sem objetivos musicais, mas para promover alguma mudança estrutural, funcional ou de padrão de conectividade neuronal) ”. Dessa forma, o paciente não precisa conhecer sobre as músicas ou algum instrumento musical. “Basta que a pessoa goste de música para que, assim, o musicoterapeuta possa interagir e proporcionar possibilidades sonoro musicais para tratar ou reabilitar”, esclareceu Matos. 

Essa ciência tem apresentado grandes benefícios na prevenção de várias doenças, tratamentos de saúde em geral, e ainda mais neste tempo de isolamento social ocasionado pela pandemia da Covid-19. “A musicoterapia pode trazer benefícios como abrir canais de comunicação (TEA, afasias, etc), mobilizar movimentos motores (lesões como o AVC), produzir hormônios e neurotransmissores para tratar ansiedade, depressão e outros. Pode auxiliar, também, na redução de dor e no tratamento de hipertensão. Além disso, a musicoterapia tem sido muito eficaz na reabilitação de pessoas infectadas [pela Covid-19], com sequelas de problemas respiratórios”, explicou a musicoterapeuta Gislaine Matos. 

No cenário da pandemia, muitos indivíduos procuram por músicas mais “relaxantes”, como apontou a pesquisa da plataforma de streaming de música e podcast, Spotify. De acordo com o serviço, que realizou a pesquisa entre os dias 19 e 25 março, os ouvintes procuraram, neste período, por músicas mais acústicas e menos dançantes. A busca por “Yoga e Meditação” cresceu em 366% durante uma semana. Músicas desse gênero podem ajudar muito nesse período de isolamento, como explica Matos. “Na quarentena, podemos fazer uso da música como recurso tranquilizador, para relaxar e auxiliar na meditação, por exemplo. Mas também podemos usar para melhorar o foco e a concentração no trabalho ou estudos”. 

DICAS 

Devido à essa pressão do momento de pandemia que estamos vivendo, Mariana Batista deu algumas dicas sobre como diminuir os níveis de estresse e ansiedade ocasionados pela falta do convívio social. Para a psicóloga, um dos meios mais importantes é a conversa, o estar presente mesmo que através das telas. Usar da tecnologia para aprender algo novo ou aprimorar o que já se conhece, manter uma vida saudável, cuidando do sono e da alimentação, praticar exercícios físicos e de respiração, visto que são muito importantes e tem efeitos positivos na saúde. Ela alerta, também, para o cuidado com o excesso de informação e orienta a busca por fontes seguras e confiáveis, principalmente quando o assunto é sobre a pandemia. 

A série documental “Explicando”, episódio “Música”, da Netflix, mostra como funciona a nossa mente e qual o trabalho que ela desempenha no processo de recuperação em danos cerebrais. A musicalidade que temos é algo biológico e em constante evolução. Assim, a música pode ser usada para aprendizagem, para o desenvolvimento de sentimentos reprimidos, lembranças profundas e na conexão com o outro. Observando o poder que a música possui e a sua universalidade, pode-se aprender o verdadeiro significado do que é ser humano e seu processo de cura e sociabilidade. 

Abaixo, deixamos uma playlist preparada para vocês, com músicas selecionadas por toda a equipe do CN. Em momentos felizes ou tristes, de esperanças ou descrenças, que tenhamos nossas músicas nos motivando a dançar e seguir em frente, embalando um dia após o outro.


Reportagem de Felipe Soares e Luana Souza

Até a próxima!
Equipe CN.

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