E agora, quem cancela o cancelamento?


Não é de hoje que as redes sociais ficaram tóxicas a ponto de causarem danos reais nas vidas pessoais de seus usuários. Nos últimos anos, o aumento dos discursos de ódio na internet aumentaram, principalmente, no Brasil. O cancelamento é um dos ramos desse tipo de mal uso das redes sociais.

No Twitter, a onda de cancelamento é frequente. Cancelar alguém virou uma espécie de hobby inadequado. Basicamente, ele funciona como um apontador de erros e tornou-se uma espécie de “cultura” que vaga na rede. Na prática, é mais ou menos assim: hoje em dia, com o crescimento dos influencers digitais e famosos através dos aplicativos, a vida tornou-se perfeita demais através das telas, eliminando qualquer tipo de erro em fala, modo de pensar e viver. Consecutivamente, quando erros são cometidos ou posicionamentos diferentes dos quais vivemos são abertamente publicados, acabam tornando-se a base para ser cancelado. 

Em algumas situações, esse “estado de cancelamento” é temporário, mas, para outros, não. A pessoa acaba sendo excluída da “sociedade virtual”, deixando, muitas vezes, de existir, tendo o seu bom histórico apagado como forma de “punição”. Grandes pessoas da mídia como, por exemplo, Anitta já foi e ainda é muito cancelada por N motivos. Quando foi cobrado dela um posicionamento político, em 2018, no período das eleições, muitos usuários começaram a cancelar. No início da pandemia, durante uma live com a advogada de Direito Penal, Gabriela Prioli, Anitta admitiu não saber sobre política e disse “que não teria como mostrar um posicionamento sobre algo que não conhecia”. 

E, parando para pensar nesse contexto de ondas frequentes de cancelamentos, como o da Anitta, nas redes sociais, é preciso pensar um pouco. Algumas perguntas devem ser feitas a si antes de qualquer publicação ou algo que leve a prejudicar alguém. Quando eu cancelo alguém, eu estou dando a essa pessoa o benefício da dúvida e da aprendizagem? Vale mais a pena apontar o erro e expor a pessoa sem explicar o porquê ela está errada? Estou sendo tolerante com os outros, da mesma forma que sou comigo quando erro? A pessoa que, teoricamente cancelei, mostrou um esforço de mudança honesta? O posicionamento dela atenta contra a vida de alguém? 

Há uma grande diferença entre discordar por não gostar da pessoa e discordar porque ela realmente está errada. Manifestar opiniões pode trazer certa sensação de controle, na maioria dos casos, sobre o que é verdade e de liberdade para simples sustento de seus argumentos pessoais. Mas isso é perigoso. Pode ser que, em determinado momento, você possa estar flertando, de certa forma, com a intolerância quando se trata de outra opinião que não vá de encontro a sua. Há uma linha muito tênue entre o “discordar por esporte” e “discordar como forma de impor limites, desejos e opiniões”. 

É nítido como, na maioria das vezes, o cancelamento pode ser uma porta para o discurso de ódio nas redes sociais. Muita gente usa dessa “ferramenta” para despejar palavras que não ajudam ninguém a evoluir mentalmente, aliás, ela exclui, tirando toda a possibilidade de amadurecimento e boa aprendizagem. Liberdade de expressão é diferente de opinião. Opinião é íntimo e diz respeito somente a você, dentro do teu grupo seleto de amigos e familiares. A liberdade de expressão não é o aval para defender qualquer tipo de preconceito, seja ele racismo, homofobia e misoginia, muito pelo contrário, a liberdade de expressão é para dar voz às questões de convívio comum dentro da sociedade e que não andam conforme deveriam. 

Então, lembre-se: quando “cancelamos” alguém nas redes, estamos alimentando uma espécie de sistema que pode e irá se voltar contra nós, a qualquer momento. Você, assim como muita gente por aí, não sabia e não se posicionava sobre determinados assuntos e ninguém saia te cancelando e te excluindo das rodas de debates, foi preciso aprender e entender para discutir sobre determinadas situações. 

Por isso veja, analise a situação e não cancele de primeira. É usando este artifício que você pode ser consumido da mesma maneira. Não tolere comentários preconceituosos, fale e explique o porquê de aquilo estar errado, usando o conhecimento intelectual. 

Até a próxima!

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