Cultura POP em outro patamar, este é o 'Black is King'


Na última semana de julho, o álbum visual de Beyoncé, ‘Black is King’, foi lançado no Disney+. Dirigido pela cantora, ‘Black is King’ traçou um paralelo entre o contemporâneo e a antiguidade, entre o que acham sobre a cultura africana e o que ela realmente é.

Beyoncé fez questão de manter o direcionamento do álbum encima da história de Rei Leão, para que houvesse um outro contexto, além do que havia criado. Traçando esses caminhos, a artista acrescentou diálogos de exaltação a cultura africana e, ao mesmo tempo, chamando a atenção de pessoas negras, que foram criadas longe de sua cultura matriz e que sofrem preconceitos por mantê-la viva até hoje.
Reprodução/DisneyPlus
O álbum seguiu a sequência de músicas do álbum sonoro, ‘The Lion King: the gift’, criado para o live action do filme da Disney. Todo colorido, ‘Black is King’ foi construído para trazer essa perspectiva entre as tradições africanas e a modernidade do século XXI. Ao todo, o álbum visual conta com 17 faixas, estando todas conectadas entre si. 

Logo de cara, a música ‘BIGGER’ abre o álbum. Ela trata sobre o sentido de permanecer a algo muito maior do que se vive. Que não somos somente versículos da bíblia, mas a palavra viva, e que também somos uma imagem muito maior daquilo que nos moldaram para ver. - “Let black be synonymous with glory. Welcome back” (“Que o preto seja sinal de glória. Bem vindo de volta”). - Um começo bem forte, mas com uma construção de cena calma e tranquila, como o começo de um processo de encorajamento para uma caminhada longa. 

Em seguida, temos ‘FIND YOUR WAY BACK’. O próprio nome se faz autoexplicativo: “Encontre seu caminho de volta”. Em trechos de passagens entre as músicas, Beyoncé introduz a próxima faixa falando sobre aspectos históricos e, até mesmo, sobre a história do Rei Leão e de exaltação a cultura africana. Especificamente nesta, a cantora fala sobre a construção da história e como ela molda o futuro do jovem. 
Shatta Wale/Instagram

‘DON’T JEAULOUS ME’ tem um ritmo mais dançante, entretanto, o paralelo que falei no início entre o antigo e moderno, se destaca aqui. As danças, as misturas entre as línguas de matriz africana e as vestimentas tomam ainda mais forma. A faixa de ‘NILE’ fala mais sobre o processo de negação da beleza que há em todo o descendente africano, e que, quanto mais escura for a pele, mas doce será, e que, quando se provoca as dores desse povo, mais difícil será de arrancar as raízes. Mostrando que tem saída, não há como torná-los separados e distintos. 

Beyoncé faz questão de mostrar o processo de confusão causado quando o negro era trazido para a América e colocado em uma cultura que não é a sua, sendo que gerações depois, eles não saberiam qual era o seu lugar, de fato, no mundo. “No final eu não sei qual é a minha língua materna. E se eu não posso me expressar, não posso pensar. E se eu não posso pensar, não posso ser eu mesmo. Se eu não posso ser eu, nunca me conhecerei. Tio Sam, conte-me uma coisa, se eu não me conheço, como você me conhece?”, termina a faixa do single ‘Nile’.

O próximo é ‘MOOD 4 EVA’, contando sobre a espreitada dos inimigos que não nos reconhecem como povo legítimo. Mesmo mantendo-se bem arrumado para conseguir mais um dia de vida, acabou o momento de se nivelar aos demais, é preciso quebrar tabus a partir de agora. A faixa destaca que a era do medo acabou e ninguém mais pode apagar o brilho do povo negro. A música também traz referências aos cantores e ativistas negros, como Michael Jackson, Prince e Nelson Mandela. Jay-Z, que faz participação na música, termina dizendo que “nem sempre é uma batalha, mas uma conversa”

As faixas seguintes ‘JA ARA E’ e ‘ALREADY’, são sobre se reconhecer, manter a cabeça erguida onde não te querem, mostrar que você está ali e ali ficará. Duas faixas engrandecendo a beleza e o poder do “rei” que vive em cada um. ‘WATER’ é sobre força, vontade de chegar o mais longe que puder e ser inspiração para os que ficaram. 

“Nós sempre fomos maravilhosos. Eu nos vejo refletidos nas coisas mais sublimes do mundo. O negro é rei. Éramos a beleza antes que soubessem o que era beleza”, diz Beyoncé na faixa de ‘BRON SKIN GIRL’. O álbum visual ainda tem as faixas de ‘KEYS TO THE KINGDOM’, ‘OTHERSIDE’, ‘MY POWER’, ‘SPIRIT’ e encerra com ‘BLACK PARADE’, single lançado em meados de julho e que não estava integrado no álbum sonoro. 

Parkwood Entertainment
“Seria um mundo melhor para nós se reis e rainhas percebessem que sermos iguais, compartilharmos espaços, ideias, valores, forças, fraquezas, nos equilibramos. É o jeito que nossos ancestrais faziam as coisas e esse é o jeito africano. A realeza em você está aí para que seja uma benção para os outros. Para você viver um legado que os outros admirem e encontrem esperança, força e cura.”, termina uma mulher dizendo. 

Beyoncé já vem nesta mudança de caminho desde o álbum ‘LEMONADE’ (2016), no qual também fazia referências aos ancestrais africanos e a cultura do povo negro norte-americano. Esse álbum visual foi muito aclamado após o lançamento e críticos ao redor do mundo deram notas muito altas para o projeto assinado por ela, e que, por sinal, são muito merecidas. Críticos até disseram que “não há mais espaço para uma simples produção da cantora, ela chegou a outro nível”, “Projeto visual incomparável, impecável do começo ao fim”. “Beyoncé está em outro patamar da cultura pop”, acrescentou um crítico do The New York Times. 

A era do pop de entretenimento comercial talvez tenha acabado para a cantora, no entanto, a mudança de foco como uma cantora negra, influentemente forte no ramo da música, provavelmente fez com que sentisse a necessidade de tornar isso ainda maior nas lutas contra o racismo nos Estados Unidos e, principalmente, no mundo. Beyoncé conseguiu construir uma linha argumentativa excelente sobre o negro na história, unindo música, futurismo, audiovisual, cultura e moda, de forma nunca vista antes. 

De forma bem simples, Black is King não é para os ativistas mais velhos, é para as crianças e jovens que estão a procura do seu lugar no mundo. O álbum visual é para formar e dar vida ao passado que foi apagado entre as gerações, Black is King é para a construção do futuro e é muito mais que estampa de oncinha e pompas hollywoodianas.

Até a próxima!

0 comentários