A Covid-19 intensificou um novo sintoma no mercado de trabalho: o da adaptabilidade


Desemprego, avanço tecnológico, novas demandas profissionais, novos ambientes de trabalho e a certeza da constante mudança são outros indícios de que o coronavírus não ataca apenas o corpo humano 

Acordar. Tomar banho. Café. Deslocar até o trabalho. Almoçar. Fim de expediente. Deslocar de volta para casa. Tarefas domésticas. Jantar. Dormir. Essa é a rotina de muitas pessoas. Ou melhor, era. Pensar na rotina atual é mais complicado. Talvez seja algo semelhante a: acordar. Tomar banho. Responder e-mails enquanto toma café. Ir para o escritório improvisado em casa. Tempo de lazer, atividades domésticas e profissionais misturados. 

O mercado de trabalho sempre sofreu mudanças com o decorrer dos anos. Com a Covid-19, no entanto, elas ganharam maior velocidade. Soma-se a isso o contexto de crise, tanto econômica, quanto política, e de saúde. O resultado é um cenário incerto, dinâmico, marcado por alterações na estrutura do trabalho, pelo desemprego, pelo surgimento de novas demandas e agravamento da ansiedade, estresse e medo. 

TRABALHO REMOTO 

Enquanto o isolamento social continua, o home office tem aumentado cada vez mais. Junto ao seu crescimento, está a discussão quanto a preferência ou não por essa modalidade, assim como seus pontos positivos e negativos. Um dos maiores desafios, nesse contexto, tem sido a delimitação do tempo e espaço de trabalho. Se antes ele era delimitado pela empresa e sua estrutura, hoje vive-se 24 horas dentro do ‘novo’ ambiente de trabalho. 

Jaqueline Ferrarezi, graduada e mestra em Administração pela UEL, em uma das
aulas à distância dadas na Unopar, no ano passado, sobre Administração Pública

Jaqueline Ferrarezi é graduada e mestra em Administração pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), com foco em Gestão de Organizações e Sustentabilidade, e, desde 2017, atua como professora. Atualmente, ela é docente na UEL, Unopar e Unicesumar. Ela analisa as consequências do trabalho remoto: “hoje perdemos totalmente essa delimitação. Com o home office, você está no seu trabalho o tempo todo. E isso gera uma carga mental de pressão muito maior. Muitos sofreram com queda de produtividade por não conseguirem encontrar um caminho do meio para esse gerenciamento (entre espaço e tempo de trabalho). Outros aumentaram muito a carga de estresse.” 

Além disso, tem-se, ainda, as limitações da estrutura física, a necessidade de se ter um espaço confortável e iluminado, com boa conexão de internet, calmo, e bons equipamentos - como computadores, determinantes para um bom exercício e desempenho no trabalho. Por outro lado, o home office pode implicar, também, em ganho de tempo, uma vez que se subtraem as horas gastas no trânsito. 

Jaqueline ainda ressalta que o trabalho à distância pode favorecer o maior exercício de autonomia e desenvolvimento, uma vez que “você acaba sendo o gestor da realização das suas atividades.” Se na empresa ou organização o trabalhador recebia um maior controle na execução de suas tarefas, na própria casa, esse processo de produção pode ser adaptado e reinventado de maneira a executar o trabalho de outras – talvez melhores – maneiras. A análise se concentrará muito mais no resultado final. “Foi um ganho a nível de criatividade e de um pensamento mais analítico e reflexivo sobre o trabalho, sobre a execução daquela tarefa. Saímos um pouco do automático.” 

As organizações e os empregadores, por sua vez, ao mesmo tempo em que amenizam os custos do seu sistema, de manutenção, energia elétrica, equipamentos, água, etc, também tem de repensar as formas de controle e acompanhamento de seus funcionários, de modo a evitar os riscos de não cumprimento dos prazos, desvio do planejamento e garantia de uma comunicação alinhada e assertiva entre toda a equipe, mesmo à distância. Pensar em trabalho remoto, levando em consideração o cenário volúvel atual, é (re)pensar a estrutura de trabalho, analisar os benefícios e debater os desafios. 

NOVOS COTIDIANOS 

Leticia Helen Beluco Teixeira adaptou um espaço no seu
quarto para continuar trabalhando remotamente

Leticia Helen Beluco Teixeira, técnica administrativa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) da UEL, passou por uma grande mudança na rotina de trabalho. Antes, era bem agitada. Ficava das 8h às 22h na universidade, pois trabalhava até as 18h e, depois, tinha aula no período noturno. Ela afirma que “no começo da pandemia tudo pareceu meio bagunçado, tinha dias que ficava desde a hora que acordava (8h) até umas 19h sem parar de trabalhar em casa. Como eu trabalho com pagamentos, no começo teve-se muita pressa para pagar algumas contas muito importantes e, por isso, tive umas jornadas extensas. Depois do primeiro mês, eu fui conseguindo ajeitar meus horários e criar uma rotina de trabalho”. 

Os horários de trabalho e lazer ficaram difíceis de serem separados: “Às vezes os dois se misturam, por mais que você tenha separado horários exatos para um e para outro. Quando se está no horário de lazer e chega um e-mail, por exemplo, você tem que responder na hora por medo das pessoas falarem que você não está trabalhando direito em casa ou deixando de lado o serviço. Trabalhando em casa eu sinto que faço muito mais do que fazia presencialmente e levo mais tempo, já que em casa eu tenho apenas um notebook e no trabalho eu tinha todas as máquinas necessárias à disposição”, contou Leticia. 

Para ela, algo positivo foi que, em casa, ela consegue ter um foco maior: “presencialmente eu tinha muitas interrupções e acabava perdendo o ‘fio da meada’”. Mas uma das perdas foi o contato com os colegas de trabalho: “eu sinto falta de tomar aquele cafezinho no fim do expediente e bater um papinho rápido. Às vezes me sinto muito sozinha”, concluiu. 

Claudinea Angélica dos Santos durante uma reunião
realizada através de uma plataforma online
Em home office, Claudinea Angélica dos Santos, pedagoga da UEL, trabalha no Laboratório de Tecnologia Educacional (LABTED) do Núcleo de Educação à Distância (NEAD) com cursos de formação para docentes e alunos da universidade, assim como acompanhando e orientando os alunos dos cursos na modalidade EAD. Sua rotina de trabalho não sofreu grandes alterações. “Antes eu trabalhava em horário comercial e, eventualmente, no período noturno. Durante o trabalho remoto, não houve muitas alterações, pois, como o meu trabalho depende do computador, continuo o atendimento aos alunos, com os cursos de capacitação e reuniões online”. 

Sendo uma pessoa mais caseira, ela não sentiu tanto impacto no dia a dia. “Tenho mantido uma rotina parecida com a presencial, porém, em alguns dias, tenho necessidade de estender mais o trabalho. Neste caso, busco compensar no outro dia trabalhando menos. Mantenho minhas atividades de lazer como sempre. Não sou de sair de casa, então não senti diferença”. No entanto, assim como Leticia, ela sente falta de estar em um ambiente de trabalho rodeada de pessoas. Ela destaca, por fim, que o home office trouxe uma economia com a alimentação em casa e com o combustível. Mas lamenta pelo aumento de desemprego e perdas salariais que muitos sofreram. 

PROFISSIONAL DO FUTURO 

No contexto marcado pela incerteza e pelas mudanças, a capacidade de adaptação faz-se essencial. Para isso, é preciso, ainda, desenvolver o autoconhecimento, “se explorar ao máximo”, como comenta a professora e mestra em Administração, Jaqueline Ferrarezi: “Somos criados socialmente para escolhermos uma única coisa. Mas não precisamos ser uma coisa só. Delimitamos muito nossa capacidade escolhendo uma única coisa. Lógico, temos que ter um norte. Mas, quando criamos um plano de carreira, um planejamento pessoal e profissional, o fazemos pensando em uma coisa só. E se ocorrer qualquer tipo de desconstrução no meio disso tudo fica difícil, porque eu não me explorei ao máximo ao longo do processo para identificar algo em que eu seria tão boa quanto, até melhor, fazendo. Uma das formas de nos prepararmos é ampliar nosso olhar sobre as nossas capacidades. Explorar.” 

Mais do que nunca, é preciso conceber o aprendizado como um processo contínuo, uma vez que os trabalhos existentes atualmente vão se modificando e deixando de existir, na mesma medida em que novos vão surgindo. Se a tecnologia substituiu algumas profissões no decorrer dos anos, ela também impulsionou o surgimento de novas, antes inimagináveis. Muitas ainda surgirão. Sendo assim, algumas habilidades vem se destacando, para além das competências técnicas. 

É o caso da inteligência emocional, da resiliência, da linguagem e comunicação assertiva, assim como a capacidade de conhecer suas aptidões e habilidades para criar estratégias e planejamentos. Jaqueline Ferrarezi destaca, sobretudo, a capacidade e o exercício de formação do próprio conhecimento: “Estamos muito acostumados a pegar o conhecimento de história e aplicar. Mas qual é o seu próprio conhecimento? Não nos questionamos sobre isso, nem fazemos muito para desenvolvê-lo.” 

ENTREVISTA DE EMPREGO 

O primeiro emprego/estágio é marcante. Antes, é preciso passar pelos processos seletivos e as entrevistas. Essa fase pode ser motivo de ansiedade, medo, estresse e insegurança. A professora e mestra em Administração, Jaqueline Ferrarezi, destacou três pontos que podem auxiliar esse processo e oferecer maior segurança àqueles que o vão enfrentar pela primeira vez. 
  1. Conheça a empresa onde você vai fazer a entrevista. Pesquise sobre ela, sobre o entrevistador, assim como as áreas de atuação, até mesmo para que você possa adequar sua linguagem. Nunca vá para uma entrevista no escuro;

  2.  Entenda a descrição da vaga para a qual você está se candidatando. Conheça as exigências que ela requer e se prepare para isso. Conhecendo bem a descrição da vaga você pode até confirmar se vai de encontro ao que você também deseja. Entenda o que a empresa espera de você e o que você espera dela. 

  3. Compreenda a finalidade das diferentes etapas, atividades ou provas do processo seletivo. Estude-o e entenda o que a empresa quer desenvolver em cada etapa.

*Todas as fotos são do Arquivo Pessoal das fontes e foram concedidas para ilustrar a matéria.

Reportagem de Ana Clara Marçal e Ana Clara Marcondes

Até a próxima!
Equipe CN.

0 comentários