Saúde mental na pandemia


A Covid-19 ataca as células humanas, os bolsos, as relações sociais, políticas e, cada vez mais, a saúde emocional da população 

Um estudo feito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) mostrou um aumento de 80% nas ocorrências de ansiedade e estresse entre as 1.460 pessoas, de 23 estados diferentes, que responderam a um questionário entre os períodos de 20 a 25 de março e 15 a 20 de abril. Já os casos de depressão quase dobraram nesses períodos, indo de 4,2% para 8,0%. 

Desde o início da pandemia, a vida como se conhecia mudou. A incerteza tornou-se a protagonista assim como a constante sensação de ameaça à vida. Junto, vêm sentimentos como ansiedade, depressão, angústia, medo, insegurança e pânico, como explica a psiquiatra e docente do Departamento de Clínica Médica da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Adna de Moura Fereli Reis: “O nível de ansiedade da humanidade aumentou, isso é fato. A sensação de insegurança é muito grande. Não sabemos o que vai acontecer. E essa sensação de não controle sobre as coisas é algo muito ruim. Na verdade, nunca controlamos nada, mas achávamos que controlávamos. Acho que a pandemia trouxe isso muito descaradamente.”

A doutora em Ciências da Saúde, especialista em Saúde Pública e Enfermagem Psiquiátrica e também Coordenadora do Curso de Pós-Graduação Lato sensu em Saúde Mental na UEL, Regina Rezende, também discorre sobre as diversas mudanças que estão surgindo. “As mudanças nas rotinas ocorreram, é fato. Como é a percepção de cada um com as mudanças é a importância. Muitos podem estar se adaptando a elas com criatividade, se reinventando. Outros podem estar em sofrimento pela sua percepção e vivência deste momento. Observamos que as estratégias do autocuidado e autoconhecimento podem auxiliar nas adaptação das mudanças deste período.” 

Frente ao turbilhão de informações e desinformações que chegam diariamente aos olhos, é difícil manter-se inerte, indiferente. A saúde mental, neste contexto, também mudou. Sentimentos que antes pareciam distantes, para alguns, hoje são recorrentes, como, por exemplo, o estresse. A Profª Dra. Regina Rezende explica que ele é “um desequilíbrio do corpo e mente gerado por estressores durante nosso dia a dia.”. Ela destaca, ainda, que é “importante evitar comportamentos que provocam um falso bem estar, como o abuso na alimentação, uso de álcool entre outras substâncias.” 

É preciso, assim, atenção para detectar quando esses sentimentos extrapolam a linha da ‘normalidade’ e tornam-se transtornos. “A gente tem que olhar o quanto isso tem influenciado no cotidiano. Porque todos nós estamos mais angustiados. Mas isso tem causado sofrimento ao ponto de você não conseguir fazer as suas atividades diárias? Ou não conseguir produzir? Está com raciocínio e sono prejudicados? Nesses casos, vale a pena uma avaliação tanto psicológica quanto psiquiátrica. A gente considera um transtorno quando começa a haver prejuízo de funcionamento desse paciente”, esclarece a Dra. Adna Fereli. 

DICAS PARA MANTER A SAÚDE MENTAL DURANTE ESSES TEMPOS 

Quando o novo imperativo é a incerteza, a saúde mental pode parecer cada vez mais desamparada e longe do equilíbrio. Acompanhada a esse cenário, está a necessidade de adaptação, que pode mostrar-se outro processo desgastante, tanto física quanto mentalmente. Pensando nisso, nós, da equipe do Conectados News, conversamos com a psiquiatra Adna Fereli sobre seis dicas que podem ajudar na gestão de nossa saúde mental. 

1. Desacelere 

O ócio pode ser uma ótima oportunidade de autoconhecimento e criatividade. Experimente fazer ‘nada’ por alguns minutos do seu dia. 

2. Cuide do sono 

Sono de qualidade é fundamental! Evite exposição a telas até 2 horas antes de deitar; evite ingerir bebidas com cafeína a noite, como refrigerantes e café e deixe o ambiente de dormir aconchegante e silencioso. 

3. Tente trabalhar com a mente para estar no aqui e no agora 

Pare e, por alguns segundos, preste atenção apenas na sua respiração. Se os pensamentos divagarem, retorne sua atenção para a respiração. Isso pode ser muito relaxante. 

4. Diminua o tempo exposto(a) a informações 

Escolha uma fonte de informações e faça isso uma vez ao dia. Excesso de informações podem gerar ansiedade e angústia. 

5. Diminua o tempo em redes sociais 

Quanto tempo você tem gastado nessas redes? Troque parte desse tempo por um livro ou pela dica 1. Vale a pena desconectar-se! 

6. Faça exercícios, se possível, ao ar livre 

Exercícios fazem bem ao corpo e à mente. Permita-se passar alguns minutos do seu dia (20-30 min) realizando caminhadas, yoga ou outra atividade física. Mas lembre-se de usar máscara! 

APRENDIZADOS 

Querendo ou não, o mundo parou por alguns instantes. E, no processo de volta, percebe-se diferenças. A retomada do seu movimento vem acontecendo de maneira gradual e com a certeza de que as coisas não serão como eram. O impacto gerado pela Covid-19 vem apresentando-se como oportunidade para desaceleração. Organização. Homem e Natureza vem renascendo e redescobrindo a nova existência no mundo pós-covid. É tempo de (re)aprender. 

Como um dos grandes aprendizados dessa pandemia, a Dra. Adna Fereli destaca “a questão de estar consigo mesmo. Nós temos muita dificuldade no desacelerar e no estar só. Entendemos estar só como solidão. E não é necessariamente isso. Pode ser solitude. Eu posso gostar dessa minha companhia. 

Estamos tendo a oportunidade de estar conosco como na vida inteira não tivemos. Esse processo de isolamento pode trazer grandes reflexões e descobertas sobre si mesmo.” Estamos enfrentado situações antes inimagináveis. Corpo e mente sentem novas e velhas sensações. Manter-se consciente do impacto que esses sentimentos geram no dia a dia é fundamental. Perceber qualquer afetação ou incapacidade de realizar as tarefas do cotidiano pode ser o momento de pedir ajuda. Estar em isolamento social não implica passar por todas essa mudanças só. Compartilhe seus sentimentos com amigos, familiares e, se necessário, com profissionais.

Reportagem por Ana Clara Marçal e Felipe Soares

Até a próxima!
Equipe CN.

0 comentários