Coluna | O poder feminino é a 'Coisa mais linda'


O entretenimento, de modo geral, tem o poder de construção e desconstrução de grandes narrativas. O emolduramento de personagens é muito importante, principalmente, quando se trata de narrativas reais. Como venho dizendo nas minhas últimas publicações, o audiovisual traz temas de urgência da sociedade, desde críticas aos sistemas de governo, preconceitos e lutas por direitos iguais. Estão se tornando o foco principal.

Adélia, Malu, Thereza e Lígia são as
protagonistas da trama (da esquerda para direita)
A série ‘Coisa mais linda’ é um belo exemplo. A história envolta das vidas de Malu Carone, Adelia Araújo, Lígia e Thereza Soares mostra o quão forte é o poder feminino unido. Na década de 1960, quando o Brasil batia na tecla do que era ou não aceitável para as mulheres, Malu e Adelia decidem mostrar o contrário. Com vidas totalmente opostas, elas se tornam amigas e abrem um clube chamado Coisa mais linda, na cidade do Rio de Janeiro. Na época, era assegurado por lei que mulheres não podiam abrir seu próprio negócio sem o consentimento e assinatura de seus maridos, ou pais para as moças solteiras. 

O fato de ser mulher já era uma barra, ainda mais tendo que depender de homens para seguir com sonhos e projetos. Com o cônjuge desaparecido, Malu falsifica a assinatura do marido e consegue abrir o clube com a amiga. No entanto, Malu é obrigada a fazer acordos com pessoas complicadas com a lei. Adelia, por ser negra, era pior. Em uma sociedade carioca cheia de “bacanas”, o que lhes faltavam era respeito. A personagem vivida por Pathy de Jesus, mostra seu potencial e não abaixa a cabeça para nada. Adelia e Malu eram o apoio uma da outra. Lígia era cunhada de Thereza, ambas amigas de Malu. Cada uma com suas diferenças e semelhanças ao mesmo tempo. 

Malu é uma personagem em construção durante a série. A paulistana sempre foi criada tendo o bom e o melhor. Sonhadora, Maria Luiza sempre mostrou e deixou claro o que queria para seu futuro, a liberdade. Adelia era empregada, batalhadora e moradora de favela no Rio de Janeiro. Com uma filha pequena, nunca deixou nada faltar dentro de casa, principalmente, seu sorriso. A vida de Adelia não era fácil. Sem estudo, a única opção que lhe sobrara era o serviço de empregada. Assim como Malu, nunca abaixou a cabeça para ninguém e não deixava homem nenhum controlar sua vida. 

Parecida com Adelia, mas de um mundo totalmente oposto, temos Thereza. Redatora em uma revista importante da cidade do Rio, Thereza tinha sua postura firme e era irredutível quando as opiniões sobre assuntos femininos eram feitos por machistas. Fazendo críticas ao patriarcado dentro da revista, Thereza sabia que seu destino era tomado pela liberdade de estar com quem quisesse, quando quisesse e na hora que quisesse. Thereza é uma personagem forte em relação a liberdade da mulher na sociedade. 

E por fim, temos Lígia. Melhor amiga de Malu e cunhada de Thereza. Lígia sempre teve o sonho de ser cantora, no entanto, seu marido a proibia dizendo que isso “era coisa de vagabunda”. Vivendo com o sonho abafado pelo marido, Lígia decidiu então ser a esposa perfeita. Mas Malu, Adelia e Thereza não se conformaram e fizeram questão de mostrar que ela precisava ir mais longe com seu sonho. O posto de dona de casa não cabia a ela. Foi a partir daí que a vida de Lígia mudou, percebendo que o sonho que tinha era maior que a si mesmo. Com agressões por parte do próprio marido, a personagem interpretada por Renata Vasconcellos, prefere mais uma vez, tentar esquecer seus projetos e voltar ao posto de esposa perfeita. 
Cast principal da série Coisa Mais Linda, produzida e lançada pela Netflix em 2019 | Reprodução Internet
Durante a primeira temporada, Lígia não sofre uma ou duas, mas várias agressões físicas e psicológicas por parte de seu esposo. Suas amigas sempre estão por perto dando o apoio e o suporte necessário, reforçando que ela precisava pedir “o desquite” (nome dado ao divórcio na época). 

O roteiro e a direção da série são baseados nessa história. No decorrer dos episódios, é possível notar o crescimento e amadurecimento de todas elas. A série brasileira consegue mostrar com precisão o que o apoio feminino pode causar dentro da sociedade. As personagens conseguem te cativar a ser como elas. Fortes, independentes, autossuficientes e mais do que tudo, sonhadoras. 

E esse tipo de narrativa é o que mostra o quão forte e poderoso é o poder feminino quando trabalhados juntos. Quantas pessoas, quantas mulheres são alcançadas por esse tipo de narrativa através da indústria do entretenimento? Quantos homens não têm que engolir seco ou ser empurrado goela abaixo o seu machismo enraizado, sendo obrigado a refletir sobre suas atitudes e seu modo de ver as coisas? 

É preciso que se construa mais narrativas de mulheres fortes. São temáticas urgentes. A sociedade precisa disso. São coisas que precisam ser discutidas e não adianta fugir, porque uma hora ela vai bater na porta novamente. Óbvio que a indústria do audiovisual visa o dinheiro, a popularidade, o sucesso de suas produções, mas ela também entende que esses são temas necessários e que através deles pode se mudar as gerações futuras começando por agora. 
As telefonistas tem 5 temporadas, sendo a última dívida em duas partes | Reprodução Netflix
Por mais que essas histórias sejam configuradas em anos passados, não significa que a luta ficou lá. Outra série que fala muito sobre o poder da união feminina é ‘As telefonistas’, da Netflix. Alba, Carlota, Angeles e Marga têm essa mesma função, de mostrar que a força, a união, a determinação e a liberdade são os princípios da luta pela igualdade. Precisamos passar a viver fora da caixa, pensar fora dela e ver o que está acontecendo fora das telas de streamings, entendendo que a luta é real. 

A questão de representatividade dos movimentos, de pessoas e lutas é para o agora. Os streamings estão produzindo mais conteúdo sobre as lutas antirraciais, as lutas do feminismo, críticas aos governos do mundo todo para chamar a atenção. O poder feminino não é para uma parte da população em específico, é para todos. Certa vez, a historiadora Lilia Schwarcz disse que “quanto mais diversos nós formos mais nós teremos a aprender e a evoluir como humanidade”. Por mais difícil que seja, aprender e se desconstruir de alguns “costumes herdados” é necessário para a evolução da sociedade, o seu crescimento como cidadão e como pessoa. 

Eu não estou aqui para tomar a frente de nada, ou assumir um protagonismo de algumas de vocês. Muito pelo contrário, o intuito desta coluna é mostrar o quão forte vocês são e como isso tudo é lindo. Creio que tenho muito a aprender com vocês ainda. Se de alguma forma, vocês (mulheres) se sentiram ofendidas ou que eu tenha escrito algo errado, estou a disposição para consertar meus erros. Vocês mulheres, são fortes, donas de si, inspiradoras e maravilhosas. 

Acredito que o mundo do entretenimento tem muito a ensinar, mas nada que bons livros e vivências reais não nos ensinem mais.

Até a próxima!

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