De corrida em corrida: os entregadores na pandemia



A pandemia da Covid-19 contribuiu para a informalização e a precarização do serviço prestado por essa parcela trabalhista em ascensão na sociedade 

Com a pandemia do novo coronavírus, a precarização do trabalho acentuou-se ainda mais, principalmente entre os entregadores de empresas de aplicativo. Em um cenário no qual muitos brasileiros passaram a realizar seus trabalhos de forma remota, outros serviços tornaram-se essenciais na corrida do dia a dia. De acordo com o artigo 3º, inciso XXII do decreto federal n° 10.282/20, os serviços de entrega são considerados atividades essenciais, devido as ações de isolamento social e para o enfrentamento da pandemia. 

No entanto, no dia primeiro de julho, houve uma paralisação dos entregadores de aplicativos em várias cidades do Brasil. As reivindicações foram por aumento do valor mínimo por corrida, fim dos desligamentos e bloqueios indevidos, fim do sistema de pontuação que distribui as corridas, seguro de vida, acidentes e roubo. Mesmo sendo considerada uma atividade essencial, a modalidade teve aumento de jornada, queda nos rendimentos e, consequentemente, maior risco de acidentes. É o que esclarece o Prof. Dr. Emerson Esteves, do Departamento de Ciências Econômicas da Universidade Estadual de Londrina (UEL). “Devido ao aumento das entregas neste período, o trabalhador aumentou a sua jornada a fim de garantir a renda mensal. Alguns, para ganhar R$60,00 no dia, precisam pedalar de quinze, vinte ou até mais quilômetros, o que pode aumentar os riscos de acidentes”. 

Para a Prof. Dra. do Departamento de Ciências Sociais da UEL, da área de Sociologia do Trabalho, Simone Wolff, o cenário atual, ocasionado pela pandemia, acentuou ainda mais a precarização do serviço. “O estado de calamidade pública imposto pela pandemia abriu brecha para aprofundar formas de contratação de trabalho intermitente, tais como empregos de meio período e temporários, subcontratações, projeto ou empreitada etc., que ampliaram a informalidade histórica do mercado de trabalho brasileiro. Com isto, os processos de terceirização, que sempre funcionaram como um artifício para empregar força de trabalho com as mesmas qualificações, mas com salários menores e sem o mesmo nível de estabilidade, são cada vez mais disfarçados na forma de MEI, emprego autônomo ou por conta própria”. As medidas de proteção contra a Covid-19 são tomadas e custeadas pelos próprios trabalhadores. 

Em relação às empresas, o foco está apenas em orientações. Elas isentam-se das responsabilidades e custos trabalhistas, uma vez que atuam sob o discurso de que os entregadores são empreendedores autônomos. É o que ressalta a professora Simone Wolff. “Além do emprego de força de trabalho mais barata, esta estratégia permite transferir aos trabalhadores custos e riscos trabalhistas, o que significa mais precarização justo no momento em que se faz ainda mais premente uma tela de seguridade social capaz de protegê-los da crise econômica e do consequente alto nível de desemprego acarretados pela pandemia”. 

DESEMPREGO NA PANDEMIA 

Nesse contexto, o trabalho de entregadores de aplicativos aumentou consideravelmente. Afinal, o pão precisa chegar à mesa. Dessa forma, foi necessário encontrar um meio para pagar as contas, alimentar os filhos, a mensalidade da faculdade e outras dívidas que não tem fim. “Como o desemprego aumentou substancialmente, houve uma ampliação da procura por este trabalho de entregadores de aplicativos, o que concorreu para baixar a remuneração das corridas. Isso porque a força de trabalho está sujeita a um mercado de trabalho, que, como qualquer mercado, funciona pela lei de oferta e de procura. Quanto mais entregadores disponíveis, mais barata fica a taxa das corridas”, explicou Wolff. 

A doutora em Sociologia ainda esclareceu que o desemprego evidencia a chamada “economia de bico”, que são trabalhos informais para complementação de renda e/ou para garantia de renda em períodos de desemprego sazonal. “O problema é que os bicos não entram nas estatísticas de emprego. É, portanto, um trabalho invisível, o que dificulta que as políticas públicas para proteção dos trabalhadores durante a pandemia alcancem eles. Esta normalização da economia de bico coloca uma parcela enorme da população em condição duplamente vulnerável, pois a ausência de vínculo empregatício deixa esta população à margem das políticas públicas de proteção trabalhista voltadas aos impactos da pandemia, o que força a se exporem ao vírus para garantir a sua sobrevivência. Ou seja, para esta população não existe a opção: a economia ou a vida, mas apenas a de qual risco de vida querem correr: morrer de fome ou de coronavírus”. 

LADOS OPOSTOS 

Robson Rodrigues Loriano faz entregas desde 2009. Ele viu neste trabalho uma oportunidade para voltar ao mercado. “Fiquei desempregado na época e trabalhar com entregas foi a maneira mais rápida e fácil para voltar ao mercado de trabalho”. Hoje, ele tem um emprego fixo como entregador em horário comercial e faz alguns extras a noite, folgando aos domingos. 

Loriano não trabalha cadastrado em aplicativo, mas com algumas parcerias. “Eu optei por ser autônomo, porque os aplicativos sempre puxam para o lado deles e quando você já trabalha direto com o estabelecimento, fica mais fácil para resolver qualquer problema que aparece, seja na entrega, no pedido, no trajeto ou qualquer outro”, afirmou. 

Diferente de Loriano, Fernando Rezenha trabalha há sete meses como entregador de aplicativos e apontou que o motivo pelo qual optou por este serviço foi a maior liberdade em relação aos horários. Atualmente, ele trabalha com um padrão de horário que se encaixa no dia a dia. Sendo a única fonte de renda, ele trabalha 11 horas por dia e folga uma vez por semana. De acordo com ele, “quanto mais você ficar online, mais corrida você consegue. O que aumenta a pontuação dentro do aplicativo. Isso ajuda”. 

Rezenha destaca que “algumas taxas são baixas, mas tem outras que são ótimas. Então uma vai compensando a outra”. Ele considera que o maior desafio é sobreviver e relaciona o trânsito como exemplo. “O trânsito é bem complicado. Mas o bom é que não tem pressão, nós definimos nossas próprias metas. Eu não tenho o que reclamar”, contou. 

O entregador evidencia que algo que poderia ser melhorado é o tempo de espera. “O tempo que ficamos esperando o pedido ficar pronto geralmente causa aglomeração de motoboys na frente dos estabelecimentos e é horrível ter que ficar esperando, perdemos muito tempo”. Ele sugere que os aplicativos solicitem o serviço do motoboy quando o pedido já estiver na fase de embalagem, “que é o tempo de chegar, pegar e já sair. E não ter que ficar esperando, porque tem estabelecimento que não deixa entrar, não pode usar o banheiro”. 

Ele não concorda com todas as pautas propostas pela paralisação. Acredita que “se criar sindicados, leis, terão pessoas tirando vantagem nisso. Se o governo entrar no meio vai piorar para a gente”. De acordo com Rezenha, “algumas pessoas tentaram oprimir quem não concordava [com a paralisação]. Isso fez com que o movimento perdesse toda a razão para mim. Então eu não quis participar”. 

PLATAFORMAS DIGITAIS ACENTUAM INFORMALIZAÇÃO 

Diante desse quadro, as plataformas digitais potencializaram e inovaram modos de informalização do trabalho, como explica a docente Simone Wolff. “Neste caso, as principais inovações foram: a transferência de riscos e custos do trabalho para o próprio trabalhador; a dispersão dos trabalhadores juntamente com o controle automatizado da força de trabalho. A dispersão dos trabalhadores é possibilitada pelo fato de não ser necessário um local de trabalho para realizar as suas atividades, sendo tudo mediado pelas plataformas. Isso dificulta a organização desses trabalhadores em prol de melhores condições de trabalho e direitos trabalhistas, tornando-os ainda mais vulneráveis aos avanços da precarização do trabalho. Contudo, as recentes greves de entregadores de app, no Brasil e em vários outros países, sugere que, mesmo com todas essas dificuldades, eles estão começando a encontrar formas de luta contra este processo”. 

A conscientização e o apoio da sociedade são importantes para ajudar na causa dos entregadores. Faz-se necessário que as empresas de plataformas digitais reconheçam a sua responsabilidade por essa demanda de trabalhadores que cresce consideravelmente no mercado de trabalho brasileiro. 

Reportagem de Ana Clara Marcondes, Felipe Soares e Luana Souza.

Até a próxima!
Equipe CN.

0 comentários