Vidas negras importam e não acabam nos trend topics



A educação mostra-se, desde sempre, como o caminho para alcançar a igualdade 
e reafirmar os direitos da humanidade 

As incontáveis mortes acometidas pela violência policial contra à comunidade negra ganharam voz, nas últimas semanas, e levaram os assuntos do genocídio, da desigualdade, do preconceito e da discriminação aos trend topics nas redes sociais. O Brasil, por questões históricas, faz parte dos países onde o racismo faz muitas vítimas e acentua as desigualdades raciais existentes. 

Em decorrência da morte de George Floyd, nos Estados Unidos, o mundo prestou solidariedade aos negros americanos e de outros países, como o Brasil. As mobilizações que aconteceram recentemente, atravessando fronteiras e continentes, explodiram com uma força nunca vista antes, mesmo diante de uma pandemia causada pela Covid-19. No entanto, o combate ao racismo vai muito além quando o tema chega aos trend topics e, também, com as mobilizações em massa. 

A violência contra à comunidade negra, indígena, entre outras etnias, evidenciam a grande vulnerabilidade desses povos, principalmente dos jovens. Segundo Mariana Panta, doutora em Ciências Sociais e pesquisadora colaboradora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB) da Universidade Estadual de Londrina (UEL), as violências decorrentes do racismo impactam, principalmente, na vida dos jovens. “Tal violência impacta estudantes negros e negras tanto no que se refere às desigualdades, em níveis estruturais, quanto às individualidades e subjetividades”. 

Panta ainda esclareceu que “apesar dos importantes avanços alcançados com a implementação de políticas de combate ao racismo e a discriminação racial, é necessário desenvolver estratégias de enfrentamento do racismo pautadas no conhecimento plural, que valorizem tanto os princípios da igualdade, quanto o direito às diferenças, sendo capazes de desconstruírem estereótipos racistas historicamente enraizados na estrutura societária brasileira”. 

COLETIVO LUIZA MAHIN E UMA EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA 

É a partir da educação que as ações antirracistas ganham intensidade e atingem todas as dimensões de uma sociedade, uma vez que faz parte dos processos das relações sociais construídas ao longo da formação do indivíduo. Desta forma, é necessário entender os possíveis caminhos para formar e educar o indivíduo para as relações étnico-raciais. 

O direito à educação para os negros foi negado até meados dos anos oitenta. Com a construção da Constituição Cidadã, houve, na época, atividades, debates e mobilização das organizações negras a fim de incluir no capítulo sobre educação ações visando o combate ao racismo. A partir da promulgação da Lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que alterou a Lei nº 9.394/96, firmavam-se novas diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro Brasileira”. 

Para Maria de Fátima Beraldo, professora e gestora do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (CMPIR) de Londrina, o caminho para a transformação de uma sociedade que tem o racismo como base só é possível por meio da educação. “É preciso investir em uma educação centrada na diversidade e na pluralidade racial, pela qual o Brasil é atravessado, para vislumbrar uma nação de fato democrática, justa e equânime”. 

Em 2015 ocorreu a primeira Marcha Nacional das Mulheres Negras, em Brasília, com o intuito de denunciar o racismo e a violência. Mulheres negras de Londrina decidiram se unir com o propósito de viabilizar a participação na marcha. Assim, foram realizadas diversas ações para arrecadação do valor necessário. Com ações coletivas, foi possível que algumas delas participassem da marcha. Uma dessas foi o Sarau das Pretas. 

Mesmo após atingido o objetivo inicial, elas começaram a questionar a possibilidade de dar continuidade ao sarau, agora como um espaço cultural próprio para a representatividade negra. O projeto teve continuidade e, assim, surgiu a ideia de formar um coletivo. O principal objetivo era unir educação e cultura. Desta forma, nasce o coletivo de mulheres negras Luiza Mahin. O projeto conseguiu apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PROMIC) em 2018. 

Fiama Heloisa, jornalista, integrante do coletivo e conselheira do CMPIR, explica que o projeto atual do coletivo, em parceria com o PROMIC, é realizar atividades nas escolas e nos bairros de periferia, sempre levando a temática da mulher negra, em espaços que são permitidos. 

A partir da atividade que é feita nesses locais, é realizada uma curadoria para selecionar os trabalhos com caráter cultural, a fim de levá-los para o sarau. Deste modo, o sarau atua, também, como um espaço para expor esses trabalhos, incentivar a participação e homenagear a mulher ou um ícone negro local ou nacional, sempre buscando mostrar e fortalecer a diversidade negra. 

Como coletivo, a proposta é sempre agir por meio da educação e da cultura. Fiama esclarece que abordar o tema desde a infância pode trazer dois resultados: “O primeiro é que precisamos falar sobre racismo. As crianças precisam entender que ele existe e que elas não podem ser mais um elo de reprodução. É importante quebrar isso na base. É uma forma de desmontar esse sistema e lutar contra ele”. O segundo resultado possível é que muitas das crianças que participam do programa são negras e elas não se reconhecem como. Um dos problemas é o apagamento da identidade, pois quando não se tem ela bem construída, a criança tende a ver o racismo como um problema distante e não como parte da realidade dela, afetando a forma como ela se desenvolverá e a forma como se relacionará com os outros e com o mundo. 

O coletivo adapta a forma de abordagem de acordo com o ouvinte, desde crianças até adultos. Por exemplo, com adolescentes e jovens, buscam abordar temas como profissão, inserção no mercado de trabalho, entre outros. Devido à pandemia da Covid-19, as atividades como aulas, feiras e o sarau estão paradas. De acordo com Fiama, o maior desafio é atingir cada vez mais pessoas, visto que, às vezes, restringe-se o contato ao círculo de convívio. “A nossa proposta é atingir o maior número de pessoas possível e, principalmente, conversar com a ‘galera’ que está na periferia, que está distante da universidade, dos centros maiores de discussão acadêmica e política sobre a questão racial. Eles vivem mais na prática, sentem na pele o peso do racismo, o peso da violência policial”. 

As manifestações que ocuparam as ruas e as redes sociais são apenas um respingo da dor com que os negros convivem há anos. Fiama acredita que a população negra “está acostumada com o extermínio, está acostumada a morrer. Infelizmente, isso já se naturalizou”. No entanto, ela defende que esse é o momento para colocar um ponto final nisso. A repercussão dos protestos dá mais visibilidade para a causa, mas é preciso ir além. Por meio da educação e através da persistência em expor o que acontece, podem levar a uma mudança, sensibilizar quem tem poder e quem realmente pode fazer algo efetivo. “É muito doído ver todas essas mortes e não ver nada ser feito no sentido contrário. Morrer por simplesmente ser preto. Não é crime ser negro”. 

POLÍTICAS PÚBLICAS EM LONDRINA

No município de Londrina (PR), existe o Conselho Municipal da Promoção da Igualdade Racial (CMPIR). O órgão foi criado em 2007, pela Lei municipal 10.185. Desde então, representa as comunidades negra, indígena e outras etnias perante os três poderes públicos na cidade. 

De acordo com a professora e gestora de Igualdade Racial do CMPIR, Maria de Fátima Beraldo, cabe ao conselho propor políticas públicas comprometidas no combate ao racismo, assim como assegurar o cumprimento dos direitos e das garantias constitucionais e legais pertinentes à família, à criança, ao adolescente, aos idosos, às populações negra, indígena e a outras etnias, especialmente quanto à orientação sexual, identidade de gênero e liberdade religiosa. “Cabe ao órgão propor políticas públicas que promovam a cidadania e a igualdade nas relações de homens e mulheres das populações negras, indígenas e outras etnias, prestando assessoria aos órgãos e entidades do poder público e instituições privadas, emitindo parecer e acompanhando a elaboração de programas e projetos desenvolvidos pelo Poder Público, com a finalidade da promoção da igualdade racial, combate ao racismo e efetivação de ações afirmativas”. 

A cidade de Londrina tem, aproximadamente, 600 mil habitantes, dos quais 200 mil são afro-brasileiros. Segundo Beraldo, a importância de ter políticas públicas voltadas para esses grupos é promover a igualdade racial, uma vez que “cada povo tem suas características, sua cultura, seu modo peculiar de vida resultado de seu pertencimento étnico-racial, de sua herança ancestral. Assim, os valores civilizatórios necessitam ser reconhecidos e respeitados pela cultura branca ocidental”. 

Fiama Heloisa, como conselheira do CMPIR, acredita que, no atual cenário, o maior desafio é conciliar as ações de fiscalização da sociedade com a pandemia, visto que as questões raciais, como denúncia de racismo e violência, não param. Há a necessidade de combater o racismo, mas sem expor e sem aumentar a fragilidade da população negra. Esses que já são vulneráveis e encontram-se ainda mais devido à pandemia. 

Fiama defende que as políticas públicas, a educação e a cultura podem, quando bem-feitas, alcançar e mudar a vida dessas pessoas. “Se a gente, enquanto coletivo, enquanto sociedade civil, conseguir tocar uma pessoa, contribuir para que ela entenda o que é ser uma pessoa negra no Brasil, no mundo, na sociedade atual, eu já fico feliz. Pois eu sei que será uma pessoa com mais força para lutar e que não vai aceitar certos tipos de sofrimento. Atingir, também, as meninas pequenas. Ver a vontade delas de assumirem seus cabelos, de se verem bonitas como meninas negras. Tudo isso não tem preço. Plantar essas sementinhas para que elas floresçam, no intuito de construir uma sociedade sem racismo, sem opressão de gênero, sem machismo, sem homofobia é a nossa contribuição. A gente está na sociedade, então temos que fazer algo por ela. Para que ela evolua e tenhamos um espaço plural, diverso e amigável para se viver”, conclui. 

Ainda que o combate ao racismo esteja caminhando e, em alguns casos, sendo reconhecido, agora, pela sociedade, como um problema, é notório ver as mudanças surgindo. No entanto, como frisou Fiama, é por meio da educação e da persistência de expor o que acontece, que pode-se levar a uma mudança significativa. A luta é de todos que vislumbram uma nação democrática e justa.

Reportagem de Ana Clara Marcondes, Felipe Soares e Luana Souza

Até a próxima!
Equipe CN.

0 comentários