Resenha: O infame clube vitoriano das mulheres livres


Para a primeira resenha do Conectados News, convidamos a estudante de jornalismo da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Ana Júlia Gabas. Em sua resenha, podemos conferir sobre a obra O infame clube vitoriano das mulheres livres, livro de ficção que reúne contos escritos por diversos autores brasileiros, que foram organizados por Valquíria Vlad e Karine Ribeiro, assim como uma correlação com a atualidade.

O infame clube vitoriano das mulheres livres


“O infame Clube Vitoriano das Mulheres Livres” é um livro de ficção que reúne contos escritos por diversos autores brasileiros. Na temática da obra, as histórias são, na verdade, cartas enviadas ao Clube das Mulheres Livres, uma coluna de jornal que publicava os relatos de mulheres fortes, livres e sonhadoras. As quais buscavam quebrar os padrões socialmente estabelecidos a elas na Inglaterra vitoriana do século XIX. 

A Era Vitoriana é o período da história inglesa em que a rainha Vitória governou, entre 1837 e 1901. Essa época concedeu à Inglaterra o título de país mais rico e poderoso do mundo, já que foi marcada pelo desenvolvimento econômico e industrial, além das conquistas coloniais imperialistas. No âmbito da política social, era um período conservador, de rígidos valores morais, com o surgimento do estereótipo do inglês cortês, cristão e de “família tradicional”. 

O fato do país ser governado por uma figura feminina não significou um avanço nas questões sociais em que as mulheres estavam inseridas, uma vez que seu papel era apenas o de manutenção dos valores de domesticidade. O ideal feminino erguia-se sob a rotulação de guardiãs da moral familiar, o que significava ser uma mãe, mulher e filha exemplar para o homem, patriarca da família. Ela era impedida de exercer cargos profissionais e políticos, sendo restrita apenas aos afazeres domésticos. 

É nesse cenário em que se passam as histórias do livro. Mesmo sendo ficcionais, todos os contos retratam muito realisticamente a censura sofrida pela mulher e, ao mesmo tempo, o desejo de liberdade de um sistema que a repreende. Uma característica geral das histórias é que, para romper os padrões e atingir esse aspecto de liberdade, a mulher tem que se vestir ou se passar por um homem. Somente assim, ela pode assumir os negócios da família, tocar um instrumento musical que não fosse o designado para uma dama, livrar-se da mutilação dos corpetes espremendo as costelas e sentir o vento em seu rosto ao correr livremente por um campo aberto. 

Ao ler os relatos na coluna do Clube das Mulheres Livres, a coragem e a bravura eram transmitidas de mulher para mulher, de adulta à jovem discípula da autonomia, inspirando-as a seguir tal exemplo. Ao finalizar o livro, a Dama, codinome para a mulher responsável pela produção e criação da coluna no jornal, deixa uma mensagem: “Não se chega à liberdade, à justiça, ao hosana sem o sofrimento, sem a dúvida do caminho, sem o risco do erro. (...) Que as próximas gerações de mulheres, de todas as sociedades futuras, perseverem na batalha por igualdade de direitos e justiça”

Há em um dos contos, ainda, simbólica menção sobre o grupo das sufragistas. O movimento pelo sufrágio (voto) feminino foi a primeira manifestação feminista exigindo reformas sociais e econômicas no século XIX, ou no contexto do livro, no fim da Era Vitoriana inglesa. As sufragistas, de fato, seguiram o anseio da Dama e perseveraram na batalha por igualdade, iniciando o movimento feminista, que engloba mulheres de todo o mundo. Foi graças à luta dessas mulheres e de muitas de outras gerações, que atualmente livros sobre essa temática podem ser publicados e discutidos abertamente. É por causa delas que hoje escrevo esse texto e posso exercer o meu direito como mulher. Mas ainda há muito o que conquistar. Afinal, a luta nunca acaba quando se nasce mulher.

Resenha por Ana Júlia Gabas.

Até a próxima!
Equipe CN.

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