Coluna | O entretenimento na construção de perspectivas reais



Nos últimos dias, acompanhamos inúmeros protestos ao redor do mundo contra o racismo. A hashtag Black Lives Matter está sendo usada desde a morte do americano George Floyde, assassinado por um policial branco, no estado de Minnesota, em Minneapolis (EUA). 

Junto ao Movimento Negro, artistas do mundo todo se mobilizaram para aumentar, ainda mais, a voz da causa. Cantores como Beyoncé, Jay Z, The Weeknd, Childish Gambino (Donald Glover), SZA e muitos outros foram em suas redes sociais pedir justiça por Floyd, por todos os negros dos Estados Unidos e do mundo inteiro. No Brasil, o #BlackLivesMatter também está sendo apoiado pelos artistas nacionais. O Movimento Negro do país ganhou um engajamento muito forte depois do assassinato do menino João Pedro, de 14 anos, no Rio de Janeiro. 

Assuntos como representatividade e privilégio branco vem se destacando entre os temas mais comentados nas redes sociais. Artistas como Tais Araújo, IZA, Lele, Lázaro Ramos, Emicida, Criolo e muitos outros usaram suas mídias sociais para enfatizar o debate. Pessoas brancas, mesmo não possuindo lugar de fala, abriram seus perfis, dando visibilidade aos trabalhos feitos por pessoas pretas no país. As consequências dessa abertura foram muito positivas, uma vez que livros como ‘Pequeno manual antirracista’ e ‘Olhares negros. Raça e representação’, das escritoras Djamila Ribeiro e Bell Hocks, respectivamente, esgotaram nas lojas virtuais. Muita gente vem estudando sobre o assunto e vestindo a camisa para ajudar na luta contra o racismo. 

A relação do negro com o mundo do entretenimento já é bem difícil historicamente. Foi em 1910 que tivemos a primeira produção de um longa-metragem feito e roteirizado por um homem negro. Injustamente desconhecido, Oscar Micheaux empenhou um papel fundamental no cinema afro-americano, no auge da segregação racial no país. Oscar foi diretor de 42 filmes ao longo de três décadas. Através deles, Micheaux aborda questões raciais e tenta esclarecer aos afro-americanos sobre o racismo. 

Oscar Micheaux era filho de ex-escravos e nasceu em 1884, em Illinois. Aos 17 anos, mudou-se para Chicago, onde começou a trabalhar como carregador. Anos mais tarde, tornou-se proprietário da sua própria produtora de filmes e editora de livros, a Micheaux Film and Book Co. Mesmo recebendo ameaças de grupos supremacistas brancos da época, amigos empresários ajudaram-no a manter-se firme. Seu primeiro longa-metragem lançado foi ‘Whithin Our Gate’ (Dentro de nossas portas), em 1925. 
Josephine Baker, primeira mulher negra
a se apresentar na França | Getty Images
Foi nessa mesma época que a primeira mulher negra pisou em um palco, na França, para se apresentar. Josephine Baker, durante sua carreira, chegou a ser considerada a cantora mais bem paga de toda a Europa. Mesmo sofrendo ataques raciais e vivendo com os olhares maldosos de grande parte da sociedade, Josephine mostrou seu exímio talento nos palcos da Broadway e do mundo. 

Baker teve um passado conturbado. Começou a trabalhar para ajudar sua mãe, aos 8 anos de idade, limpando a casa e cuidando de crianças nas casas de brancos ricos da cidade de St. Louis. Parou de estudar e fugiu de casa, aos 13 anos, para trabalhar como garçonete em um restaurante. Em 1919, juntou-se ao Jones Family Band e saiu em turnê. Com o tempo, aprimorou seu talento na dança e casou-se com Willie Baker, do qual manteria o nome pelo resto da vida. Após ajudar as tropas francesas no repasse de informações, durante a Segunda Guerra, Josephine voltou para os Estados Unidos, em 1950, para apoiar o Movimento dos Direitos Civis, participando de manifestações e boicotando clubes segregacionistas. Em 1963, Baker participou da marcha a Washington, ao lado de Martin Luther King, e foi uma das oradoras naquele dia. 

Assim como Oscar e Josephine, muitos outros deram a cara a bater contra o racismo na sociedade e no mundo do entretenimento. Hoje, ainda que pouco, temos pessoas pretas que exercem a representatividade com êxito. O entretenimento tem um papel fundamental na criação do imaginário humano, e o racismo vem sendo abordado com mais frequência dentro dessa indústria. Ela vem oferecendo referenciais, junto de suas histórias, capazes de transformarem o mundo que a gente já conhece, desde o audiovisual, até a música. 

Cast principal de filme Pantera Negra (Lupita Nyongo,
Michael B. Jordan, Chadwick Bozeman e Danai Guirira)
O que há de especial em tudo isso é termos negros contando essa situação vivida e protagonizada na própria pele. Como exemplo, tem-se o ‘The Birth of a nation’ (Nascimento de uma nação), dirigido e contado pela perspectiva de um homem negro. A partir de histórias contadas através da concepção do povo negro é que se constroem narrativas menos estereotipadas, trazendo mais experiência da realidade. Dessa forma, fazem-se produções sob outros pontos de vista. 

A representatividade é importante para a desconstrução da história do povo negro. Filmes, como ‘The Black Panther’ (Pantera Negra), foram grandes sucessos de bilheteria justamente por isso. Crianças, jovens e adultos, por muito tempo, cresceram vendo Superman, Capitães América e outros heróis brancos. Quando olharam para a tela do cinema e se reconheceram, sentiram como se fizessem partes disso. Eu senti isso. 

O próprio filme traz a desconstrução do que é a África. Por anos, nos foi passada a visão de pobreza, guerra e extrema miséria. Em Pantera Negra vemos o outro lado, a visão cultural de um continente rico em tradições milenares e totalmente moderno. A indústria audiovisual percebeu a necessidade disso, tanto que, ao final de ‘Avengers: End game’, vemos o Capitão América (Chris Evans) passando o escudo para seu companheiro Sam Wilson (Anthony Mackie), o Falcão, ao invés do seu amigo de infância, Bucky (Sebastian Stan). Nas entrelinhas, logo confirmado pelos diretores da saga, entenderam que o novo Capitão América precisava ter a cara da América. Uma América do povo negro. 

Cantora IZA, símbolo de representatividade
negra no país | Getty Images

Na área musical, atualmente, temos Beyoncé como nome de peso dentro do cenário pop, e com um talento que resultou em inúmeros prêmios e reconhecimento no mundo todo. A cantora sempre foi ícone de representatividade, desde o início de sua carreira, e engajada em causas sociais. No seu último álbum, Lemonade (2016), trouxe, nas letras, críticas ao governo e as corporações policiais, além de falar abertamente sobre o racismo, também tratado no single ‘Formation’. A cantora se consagrou ainda mais na sua apresentação no Coachella, em 2018, que estava lotado da juventude negra norte-americana. 

No cenário nacional, IZA, hoje, é referência. A cantora é super engajada em causas sociais, principalmente das favelas do Rio de Janeiro. Atualmente, é embaixadora na ONU e ícone de representatividade para as meninas pretas do país. Ganhadora de prêmios nacionais e internacionais, é ponto de referência para muitas meninas que olhavam para a TV e pouco se reconheciam. Emicida é rapper, ativista e crítico das políticas públicas para os moradores das favelas brasileiras. Em suas músicas, o rapper faz críticas férreas contra o racismo e segue sendo um ponto de partida para os pretos de todo o país. 


Hoje temos filmes, séries e músicas que retratam e relatam o racismo sofrido na pele do preto no mundo todo. Para você entender um pouco mais sobre a participação dos negros no meio do entretenimento, nas lutas raciais e em questões de representatividade, preparei algumas dicas de filmes e séries


1. TODO MUNDO ODEIA O CHRIS (EVERBODY HATES CHRIS) 

A série de televisão americana é baseada em experiências conturbadas do comediante Chris Rock durante sua adolescência. Ela mostra as perspectivas de como foi ser criado em um ambiente racista, entre os anos de 1970 a 1985, tanto no período da escola, quanto no dia a dia com a família. A série aborda como o racismo é enraizado nos ambientes do cotidiano, como todos da família passaram por essa situação e como isso chega aos filhos. Grande parte do elenco é negro e a série trata o assunto de forma leve e descontraída. Ótimo programa para ver com a sua família em um fim de tarde de domingo. 

2. OLHOS QUE CONDENAM (WHEN THEY SEE US) 

É uma minissérie de quatro episódios, produzida pela Netflix, que conta a história de quatro jovens negros presos, em 1989, por um crime acontecido no Central Park, em Nova York. Eles são pegos em meio a uma confusão, no centro da cidade, onde uma mulher branca é agredida e fica em uma situação de risco de vida. Levados à delegacia, os meninos são coagidos pela polícia, separadamente, a fim de admitirem o crime. Essa história fala sobre o aspecto do racismo nos Estados Unidos e mostra como isso era usado contra a população negra da periferia da cidade. Mesmo com o fato de serem pegos sem nenhuma prova, não se conhecerem e os seus depoimentos originais não baterem, a polícia faz de tudo para encerrar o caso. Mas a história não para por aqui. Vale a pena você assistir para entender, nos mínimos detalhes, como tudo aconteceu e qual foi o desenrolar dessa história verídica. 

3. ADVINHA QUEM VEM PARA O JANTAR (GUESS WHO'S COMING TO DINNER) 

Em formato de comédia, o filme traz uma crítica ácida sobre os relacionamentos interraciais, que começaram a ser mais comuns na década de 1960. Joey (Katherine Houghton) e John (Sidney Poitier) se conhecem em uma viagem para o Havaí, ficam completamente apaixonados e decidem se casar. Ambos são de classe média e muito elegantes. Mas John é negro e teme a recepção da família da moça. Joey tenta acalmá-lo dizendo que seus pais são liberais e que isso não seria um problema. Na prática, isso não acontece e a família da moça tem que dançar conforme a música para levar esse relacionamento sem grandes problemas. 

4. PANTERA NEGRA (BLACK PANTHER) 

Pantera Negra é o primeiro filme da Marvel Studios protagonizado por negros. A produção, de 2018, é cheia de referências históricas, valorizando as particularidades culturais africanas e produz uma quebra dos estereótipos dados à África durante sua história. As personagens mulheres têm papeis equivalentes ao do protagonista e são fundamentais para o desenvolvimento da narrativa. O filme é estrelado por Chadwick Boseman, Lupita Nyongo, Michael B. Jordan, Danai Gurira entre outros. É cheio de representatividade e emoção, do começo ao fim. 

5. CARA GENTE BRANCA (DEAR WHITE PEOPLE) 

Cara Gente Branca traz em seu enredo aquela cutucada no Status Quo. Um grupo de quatro estudantes negros vão enfrentar os desafios de estudar no fictício Ivy League College enquanto estudantes brancos organizam uma festa com temática negra, deixando-os furiosos. Em 2017, a trama virou uma série da Netflix estrelada pela atriz Logan Browning. A série já está na sua terceira temporada e, até o momento, a Netflix não se manifestou sobre o cancelamento ou sobre uma possível renovação. Cara Gente Branca é uma comédia ácida e que vale muito a pena de ser vista. Questões de representatividade, direitos igualitários, local de fala e aceitação do corpo negro são trabalhados durante toda a produção, sem contar com o desenrolar da história, das risadas e romances que surgem durante a trama, te deixando de queixo caído. 

Espero que vocês aproveitem essas dicas, estudem sobre os assuntos levantados e se aprofundem. Se seu local de fala não é esse, ouça com atenção o que os movimentos têm para dizer, vista a camisa e nos ajude no que for necessário. O protagonismo dessa história é NOSSO, mas precisamos da sua ajuda!

Até a próxima!

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