Corrida contra o tempo em busca da vacina para a Covid-19


Com o número crescente de casos e mortes pelo coronavírus, pesquisadores correm contra o tempo para encontrar uma vacina eficaz.

A vacina é conhecida pela humanidade há mais ou menos 200 anos. Considerada uma das maiores conquistas da história, é o meio mais seguro de prevenção das doenças infectocontagiosas, uma vez que, atualmente, é mais fácil prevenir uma doença do que trata-la. 

Elas são os resultados de pesquisas intensivas e constituem os mais modernos e sofisticados imunobiológicos. Com grande parte de uma comunidade protegida, menor é a chance de contágio. Se esse número chegar a 100%, as chances da erradicação são quase que completas. A função das vacinas é estimular o corpo na produção de anticorpos contra os microrganismos, seja um vírus ou uma bactéria. Quando uma pessoa é vacinada, seu corpo detecta a substância da vacina e produz uma defesa, chamada de anticorpos. Esses, por sua vez, permanecem no organismo e evitam que a doença ocorra no futuro, por meio da memória imunológica, chamada de imunidade. 

A Covid-19 acentuou a desigualdade presente entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos, entre aqueles que podem recorrer a um hospital e aqueles que não tem condições de comprar uma máscara. Entretanto, na corrida por uma “cura”, estamos todos no zero. Nenhum país ou pesquisador tem o que mais precisamos no momento: uma vacina e tratamento eficaz. O que predomina é o desejo de encontrar algo que altere o desenrolar da pandemia. 

Enquanto não pudermos conter o vírus, a vida como conhecemos não consegue se reestabelecer. Por isso, um tratamento ou vacina é sinônimo de esperança para muitas pessoas. O medo de ficar doente ou perder alguém que ama prevalece. Entretanto, não podemos deixar de considerar os ganhos inimagináveis que aguardam as empresas que conseguirem uma vacina ou medicamento. 

De acordo com especialistas, o prazo mais curto para testar um produto é de 12 a 18 meses. O desenvolvimento da vacina contra a caxumba demorou 4 anos, sendo o mais rápido registrado na história. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, informou para os senadores americanos que “vai levar pelo menos um ano e meio para ter uma vacina que possamos usar” contra o novo coronavírus. 

Muitos tratamentos que estão sendo pesquisados para a Covid-19 são a partir de medicamentos já conhecidos. Desde o reconhecimento de uma substância propícia até o licenciamento de uma nova medicação leva-se em torno de 10 a 15 anos. A fim de encurtar o tempo, muitos pesquisadores estão tentando utilizar fármacos já licenciados para tratamento de outras doenças. 

Em relação às vacinas, o processo pode ser mais trabalhoso. Pois, para se provar sua eficácia, ela deve ser administrada no local onde a doença está acontecendo. É preciso esperar por um período indefinido de tempo para verificar se as pessoas que estavam expostas à doença ficaram protegidas. Difere-se de ensaios clínicos para medicamentos, os quais são realizados em ambulatórios ou hospitais, em pessoas já diagnosticadas com a doença.

Métodos utilizados na produção de vacinas 

Um dos métodos de produzir vacinas é enfraquecendo ou atenuando o microrganismo, que continua vivo. Exemplo de vacinas desenvolvidas a partir desse método são as de sarampo, caxumba e tuberculose. Outro processo pode ser feito utilizando o patógeno morto, por meio do calor ou substâncias químicas. As vacinas contra a pólio, hepatite A e B são exemplos em que foram removidas as partes do vírus que causam a doença. São vacinas com menos risco de efeitos colaterais, entretanto, é necessária mais de uma dose, visto que apresentam uma resposta imunológica mais leve. 

Um novo método que está sendo estudado é baseado em nucleotídeos. Os pesquisadores trabalham com a configuração genética do patógeno para produzir proteínas que são administradas como vacina. Então, as células humanas reconhecem esse código genético e começam a produzir as mesmas proteínas, que serão combatidas pelo sistema imunológico. 

As fases para se obter uma vacina 

O chamado “padrão-ouro” são as evidências necessárias para obter a aprovação de um medicamento. O estudo mais confiável é o ensaio clínico, no qual é acompanhado o comportamento da vacina no corpo humano de forma detalhada. A fase 1 tem como objetivo avaliar a segurança da vacina. Para isso, poucas dezenas de voluntários saudáveis recebem a dose. O processo demora cerca de 3 meses. Se a vacina for considerada segura, segue-se para a fase 2. 

Na fase 2, o objetivo é avaliar como o sistema imunológico responde se for infectado pela doença e se produz anticorpos. Por isso, as doses são, preferencialmente, administradas em áreas com surtos da doença e em centenas de pessoas, levando em torno de 6 a 8 meses. Se não houver nenhum problema, parte-se para a fase 3, na qual o estudo é testado em milhares de pessoas, em um período de 6 a 8 meses. Até o momento da produção dessa reportagem, a Universidade Oxford, no Reino Unido, entrou nesta semana em sua fase três de testes clínicos. O processo é considerado um dos mais avançados e promissores, entre todas as pesquisas.

A Fase 4 é para identificar se ocorrerá problemas a longo prazo, tanto em segurança, quanto em eficácia. Uma agência regulatória é responsável por revisar os dados e decidir se a vacina será liberada ou não. As agências responsáveis por esse processo podem requerer outros estudos depois da aprovação e autorização da comercialização de um medicamento. Entre as principais agências de licenciamento estão a Food and Drug Administration, dos Estados Unidos, a Central Drugs Standard Control Organization, da Índia, a National Medical Products Administration, da China e a Agência Europeia de Medicamentos. 

Tempo X segurança 

O maior desafio, de acordo com a Dra. Julie L. Gerberding, vice-presidente executiva da Merck nos Estados Unidos, em entrevista concedida a Maryn Mckenna, para o curso "Jornalismo na pandemia: Cobertura da Covid-19 agora e no futuro" é equilibrar a capacidade da vacina de oferecer uma proteção rápida e, ao mesmo tempo, ter a certeza de que não gerará danos futuros às pessoas. A segurança só consegue ser comprovada com o tempo, pois outros efeitos colaterais podem aparecer depois e, para isso, é preciso acompanhar um grande número de pessoas vacinadas. 

Uma das formas de acelerar esse processo são os chamados “teste de desafio” ou "infecções humanas controladas", onde as pessoas são expostas a doença, a fim de infectá-las intencionalmente. É preciso que os participantes tenham consentimento total e a aprovação de autoridade e especialistas em ética médica. Entretanto, há um enorme debate acerca do assunto e, por muitos, é considerado algo extremo.

Fabricação e distribuição 

Mesmo com uma vacina produzida em tempo recorde, outros desafios surgem no caminho. Dentre eles, a infraestrutura necessária para a produção, a disponibilidade de matérias-primas, patentes, a distribuição adotada e outros. Um fator preocupante é que as indústrias buscaram reduzir os estoques nas últimas décadas. Muitas delas trabalham com países fornecedores de matérias-primas de baixo custo. No cenário atual, esses países podem optar por restringir a exportação, com o objetivo de manter os produtos para uso interno. 

Mesmo com o aumento de produção, a demanda será muito alta por um tratamento contra a Covid-19, o que fará com que os suprimentos iniciais acabem rapidamente. É algo que o mundo todo precisa e as doses não ficariam prontas para todos ao mesmo tempo. Diante disso, é importante definir quem terá prioridade para receber a vacina. 

Por enquanto, muitos países estão trabalhando juntos. Mas, e se uma vacina for desenvolvida? Continuaremos todos juntos ou cada país vai lutar por si mesmo? É preciso estabelecer como será a escala de produção para ter uma dimensão de quanto tempo levará para produzir a quantidade de doses necessárias para o mundo todo. Assim sendo, é importante que cientistas e governos trabalhem juntos para impulsionar o tratamento mais eficaz, visto que há um enorme risco de perder tempo e dinheiro em algo que não traga resultados positivos.

Bill Gates, em uma entrevista ao “The Daily Show”, publicada no YouTube em 7 de abril deste ano, anunciou que a Fundação Bill e Melinda Gates construirá fábricas para diferentes vacinas, ainda em fase de testes. Ao todo, serão sete fábricas, mesmo que haja a probabilidade de usar menos da metade. O intuito é reduzir o tempo que seria necessário no futuro. 

Esperança por tratamento aumenta as notícias falsas 

Muitos estudos sobre a Covid-19 estão sendo compartilhados em sites e redes sociais, não em revistas médicas, que trabalham com um rigoroso processo de revisão de estudos científicos. Isso implica na falta de revisão, avaliando quão confiável e bem feito é o estudo, e gerando diversas reações nos leitores. Desse modo, é importante verificar se o que está sendo publicado é de fato verdadeiro, antes de compartilhar. 

Alguns aspectos podem ser questionados, a fim de realizar essa verificação. Por exemplo: qual foi o número de participantes e como eles foram escolhidos? Havia um grupo de controle? Ocorreram efeitos secundários? Algum participante morreu? Os objetivos do estudo foram cumpridos? Os participantes que receberam o medicamento teriam melhorado, mesmo se não os recebessem?

Reportagem por Ana Clara Marcondes e Felipe Soares

Até a próxima!
Equipe CN.

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