Educação na pandemia



No cenário pós-covid, marcado pela dinamicidade, adaptações e apostas tecnológicas, a educação vem enfrentando desafios cada vez maiores 

No dia 11 de março deste ano, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou estado de pandemia global do novo coronavírus. Desde então, o cenário tem sido de hospitais lotados e escolas vazias e fechadas. Todos os 26 estados, mais o Distrito Federal, suspenderam as aulas presenciais. O acesso à educação – de maneira universal e com qualidade – sempre foi um desafio no Brasil, país de proporções continentais e múltiplas realidades. A Covid-19, por sua vez, intensificou a transformação digital em todas as áreas. Na educação, esse processo vem acentuando, ainda mais, os desafios do oferecimento de um ensino igualitário. 

Acesso à internet. Computador. Celular. Ambiente doméstico tranquilo e com um mínimo de conforto para estudar. Esses são artigos essenciais para a educação à distância. Mas, para grande parte das famílias brasileiras, são artigos de luxo. Muitas crianças recebiam- talvez a única- refeição do dia nas escolas, como aponta a professora Dra. Cassiana Magalhães: “Será que a gente pode dizer que aquelas crianças que têm um lanchinho, uma casa aconchegante, pais saudáveis, pessoas para acompanhar o seu processo de aprendizagem, vão ter o mesmo desenvolvimento, as mesmas condições do que aquelas crianças que não têm todo esse apoio?” 

Juliana Bicalho é pedagoga, mestre em 
Educação com ênfase em Políticas 
Educacionais e Doutoranda na mesma 
áreaEla também é professora 
colaboradora na UEL| Arquivo pessoal

Em um contexto em que muitos estudantes se viram forçados a ajudar a complementar a renda familiar, pensar nos estudos é tarefa árdua. A busca por condições básicas de vida, como uma alimentação de qualidade, luz, água entre outros, tem saltado na frente da educação; desencadeando o abandono dos estudos e o trancamento de matrículas, por exemplo. 

É o que discute a pedagoga, mestre em Educação e professora colaboradora da Universidade Estadual de Londrina, Juliana Bicalho: “Um dos grandes impactos desta pandemia, no âmbito da Educação, foi mostrar à sociedade brasileira que não tem como afirmar que todos têm as mesmas condições de aprendizagem em uma sociedade na qual o ‘ponto de largada’ e o próprio ‘caminhar’ em direção ao objetivo são completamente diferentes entre os estudantes de classes sociais diversas. A Educação deve continuar sendo de acesso universal e, tão importante quanto, precisamos de políticas que garantam que este estudante consiga dedicar-se aos estudos com o devido tempo – e condições – necessárias à aprendizagem efetiva.” 

TRABALHO DE COLABORAÇÃO

Em tempos incertos e em constante mudanças, a capacidade de adaptação torna-se imprescindível. Esse processo, no entanto, exige a colaboração entre sociedade e Estado. Adaptar-se não é fácil quando a vida carece dos recursos básicos, até mesmo para o equilíbrio da saúde física e mental. Enquanto as mudanças da Covid-19 se estendem por tempo indeterminado, a promoção de aulas à distância tem sido utilizada na tentativa de dar continuidade aos calendários escolares e acadêmicos de milhões de estudantes. 

Os desafios são inúmeros e vão além dos computadores e acesso à internet. Juliana Bicalho aponta a importância, primeiramente, do Estado nesse processo: “O Estado precisa chegar até aqueles que não possuem internet, computador e o mínimo de estrutura física. Caso contrário, estaremos negligenciando um dos princípios mais importantes da Educação brasileira estabelecido pela LDBEN 9394/96: o da igualdade de condições para o acesso e permanência na escola. Pensado e feito isso, podemos começar a pensar em outras coisas”. 

EDUCAÇÃO INFANTIL

Conciliar a infância e a educação escolar das crianças não tem sido tarefa simples. Com o isolamento social, ir ao parque brincar com os amigos, sair na rua para jogar bola ou fazer guerra de balão d’água com a turma são atividades suspensas, pelo menos por enquanto. Preservar e manter essa infância, com a restrição do perímetro de suas casas, tem se mostrado complexo. Ao mesmo tempo em que as crianças, a partir dos 4 anos, precisam já estarem nas escolas, elas também precisam explorar esse ambiente externo, corporal, da imaginação. Portanto, não se deve expô-las a uma tela de computador por tempo prolongado, segundo recomendações da própria OMS.

Cassiana Magalhães é pedagoga, doutora pela 
Unesp de Marília e fez seu pós doutorado na Universidade 
de Évora. Toda sua trajetória de pesquisa é na educação 
infantil | Arquivo pessoal

Cassiana Magalhães é doutora em educação e especialista em educação infantil e destaca, nesse contexto, que “temos defendido a manutenção do vínculo. Cada escola vai encontrar a melhor forma. Você pode fazer alguma atividade pelo vídeo, contar uma boa história, cantar algumas músicas, encontrar sua turma. Mas o que temos pedido para evitar são aulas virtuais. É completamente diferente você ter uma turma de adultos, adolescentes assistindo aulas, o que já é difícil. Agora, imagine colocar crianças de 3, 4 anos? O que isso tem de sentido para uma criança tão pequena? Temos nos questionado sobre isso.” 

Ela ainda comenta sobre a necessidade do suporte e trabalho de equipe entre as escolas e as famílias para enfrentar esses tempos: “Estamos tentando acolher as famílias, no sentido de parceria, mas não no de assumir a educação a distância para a educação infantil, até para não corrermos riscos de que isso se torne uma realidade num futuro próximo.” 


ROTINAS MODIFICADAS 

Com dez anos de profissão, a professora de ensino público da rede municipal, Maria José de Souza, 38, teve que se adaptar a uma nova realidade. Para ela, um dos maiores obstáculos foi encontrar uma maneira de abordar as aulas de educação física para que tanto as crianças quanto os pais entendessem, já que eles auxiliariam os filhos nas atividades. Esse envolvimento da família com as atividades escolares, segundo a professora, fez com que os pais acompanhassem mais de perto a rotina de suas crianças. “As famílias interagiram mais com o ensino, estão acompanhando de perto o aprendizado das crianças, além de acompanhar, também, o trabalho do professor”. 

A professora destaca que um dos pontos negativos em relação à adoção do trabalho remoto foi a ansiedade. “Por ser tudo novo, fiquei doente no primeiro mês. Eu não dormia direito e com isso alterou o meu emocional, atacou a minha ansiedade, voltou a enxaqueca muito forte e a síndrome do intestino irritado”. Além de outros fatores, como conciliar o trabalho com os afazeres em casa e acompanhar as atividades escolares dos dois filhos. 

Maria José procura facilitar a explicação das atividades que ela desenvolve para seus alunos, além de oferecer seu suporte: “Tenho procurado fazer vídeos para eles identificarem que estou acompanhando, mesmo de forma remota. Às vezes eles me mandam áudio dizendo que estão com saudades da escola, dos amigos, dos professores e, neste momento, eu tento confortá-los transmitindo uma mensagem positiva”. 

Isabely Santos de Melo, estudante de 
medicina veterinária | Arquivo pessoal

Já Isabely Santos de Melo é estudante de medicina veterinária, do terceiro período, e continua com o calendário acadêmico de forma remota. Para ela, o principal impacto na mudança é “a diminuição do aprendizado, quando comparado ao presencial”. No entanto, ela destaca que um dos pontos positivos do EAD é “principalmente em aulas gravadas, que dá para pausar e voltar quantas vezes você quiser”, o que pode auxiliar na compreensão e nas anotações do conteúdo. 

As aulas práticas serão realizadas somente quando voltarem as aulas presenciais. Ela conta que os trabalhos, provas e atividades aumentaram com as aulas a distância, o que caracteriza o “principal ponto de reclamação dos alunos”. Em alguns momentos, o que pesou foi a falta de materiais disponíveis apenas na faculdade. 

Assim como em todas as áreas da vida, durante este período de mudanças, o ensino não presencial despertou novas sensações. A estudante de veterinária afirma que, em alguns momentos, sentiu a saúde emocional abalada, principalmente no início: “quando tudo isso começou foi o pior momento. Era o medo de como seria”. 

Em meio a uma adaptação forçada, os professores continuam dando suporte aos alunos. “Os professores estão sempre dispostos a nos ajudar, fizeram grupos [em aplicativos de mensagens] para poder facilitar a comunicação e estão sempre em nosso favor, diferente da coordenação da faculdade”. 

Assim como Isabely, a estudante de arquitetura e urbanismo, Gabriela Maria Silva Trindade de Morais, segue com o calendário acadêmico. Gabriela está finalizando o terceiro período do curso e teve que se adaptar às aulas remotas e às novas plataformas. “Acredito que o maior impacto nessa mudança foi a adaptação ao utilizar novos meios de comunicação, já que eu nem conhecia alguns sites que estou usando agora nas aulas online”. 

Trabalho da estudante de arquitetura 
realizado durante período de 
aulas em EAD | Arquivo pessoal

Essa mudança na rotina, devido à Covid-19, fez com que a estudante mudasse alguns critérios em relação à aula virtual, desde a comunicação com os professores até o ensino de algumas matérias, que, como ela destaca, melhoraram: “Entre os pontos positivos nas aulas EAD, estão, por exemplo, o fato de ter as aulas gravadas pelos professores, dando a possibilidade de rever novamente alguma aula, caso apareça alguma dúvida com relação à matéria. Outro fator é o deslocamento até a faculdade, porque eu acabo perdendo tempo no trajeto tendo que pegar dois ônibus e, com aulas online, eu posso utilizar esse tempo estudando mais ou descansando”. 

Com essa demanda online, os trabalhos aumentaram, o que Gabriela acredita ser pelo fato de os professores estarem se adaptando a essa nova forma de dar aula e, de certa maneira, quererem suprir os conteúdos que os alunos não terão presencialmente. Enquanto isso, ela destaca que segue aprendendo a parte teórica dessas matérias, sendo as práticas retomadas no retorno das aulas presenciais. 

Com essa nova realidade, adotada há três meses, a estudante de arquitetura e urbanismo, assim como a de medicina veterinária, Isabely, sente falta de alguns recursos que a faculdade oferece, como a biblioteca e outros materiais. Apesar de destacar alguns pontos positivos e sentir uma melhora na comunicação com os professores, agora que todos encontraram um caminho de adaptação para as plataformas de aula online, ela sente falta das aulas presenciais. 

IMPULSIONADORES

Seja a distância, seja presencial, a educação e, principalmente, o professor é basilar para qualquer sociedade. Sua capacidade de impulsionar seus alunos (sejam crianças, jovens, adultos ou idosos) profissional e pessoalmente são os antídotos para o combate dos problemas que assolam o país. O reconhecimento de sua importância, no entanto, nem sempre é destacado. Se há um lado positivo a ser extraído desses tempos de pandemia, para Cassiana Magalhães e Juliana Bicalho, é a maior valorização dos professores. 

“Ensinar não é para qualquer um e, infelizmente, vivíamos um momento em que as políticas educacionais estavam cada vez mais flexibilizando aquilo que entendemos por ‘ser professor’, com o avanço da compreensão equivocada de que ‘quem possui notório saber, está apto a ensinar. O processo de ensinar e aprender não se restringe ao conteúdo, existe uma série de elementos não visíveis que ocorrem concomitantemente à mediação do conteúdo por parte do professor. Entre ‘o que ensinar’ e o ‘aprender do estudante’ existe uma lacuna que é preenchida por metodologias, métodos, objetivos e instrumentos que tornam possíveis a aprendizagem efetiva”, conclui Juliana Bicalho. 

Já a especialista em educação infantil, Cassiana Magalhães, explica que “não é fácil ensinar uma criança tão pequena, e eu acho que esse momento da pandemia tem mostrado isso para as famílias: que não é fácil ensinar, não é qualquer pessoa que ensina. Não basta gostar de crianças para ensinar, é preciso aprender, na licenciatura, no curso de pedagogia como ensinar as crianças tão pequenas.”

Reportagem de Ana Clara Marçal, Ana Clara Marcondes e Luana Souza

Até a próxima!
Equipe CN.

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