Bússola desconfigurada


Nas minhas resoluções de Ano Novo, apontei em direção ao Norte. Estava pronta para encarar os novos desafios que este ano traria, os obstáculos que, muito provavelmente, tirariam o meu sono, mas seriam desafiantes. No entanto, para alcançar a direção inicial, deparei-me com contratempos, curvas e uma nova rota repentina.

A bússola precisa do campo magnético. Só funciona assim. A vida, para seguir conforme o planejado, precisa estar em ordem, ou, ao menos, favorável. Para mim, ela atua assim. Sempre gostei de seguir planos. Por outro lado, compreendo que nem tudo funciona como planejamos. A chegada de um vírus, ainda no final de 2019, e que ganhou proporções drasticamente absurdas neste ano, fez com que a minha bússola, inicialmente configurada para o Norte, parasse de funcionar. Tudo parou de funcionar. Ela apontava para várias direções. Estava desnorteada. Nada era mais favorável. 

Seguir conforme o planejado certamente não era mais uma opção. Não adiantava acompanhar os pontos cardeais. A bússola estava desconfigurada. Foi preciso adaptar-se à uma nova rotina. Seguir por um caminho desconhecido e sem orientação. Neste percurso, encontrei desbravadores prontos para ajudar a seguir o meu caminho com menos pesar e angústia. E esperava ajuda-los também. 

Por outro lado, deparei-me com pessoas menos solidárias. Cada um por si, eles disseram. Notei que continuavam egocêntricos e, com esse vírus, nada aprenderam. Não lhes caíram a ficha que para seguir rumo ao caminho inicial, a união era a solução. Tentar buscar um caminho sozinho é uma missão impossível. E, neste tempo, egoísmo. 

Esse vírus me fez perceber o quanto é necessário olhar para o mundo do outro, e, se possível, tornar o percurso menos dolorido. Estou trilhando um caminho por meses e sem perspectiva da chegada final. Muitos me encorajam e dizem que logo tudo estará resolvido, que surgirá uma luz que iluminará o meu trajeto. Enquanto isso, sigo desbravando curvas de sentimentos ora tão angustiantes a ponto de me derramar, ora normais. Mas normalidade já é algo que perdeu o sentido. 

Com esse vírus, acredito não ser a única a viver experiências que nem se quer esperava viver ou seguir outras rotas inimagináveis. Mudar minhas resoluções, fazer novos planos, traçar um percurso até então desconhecido. Enquanto minha bússola segue desconfigurada, enquanto percorro por rotas, viro a direita e a esquerda, pulo obstáculos, enfrento a dor, a angústia, reflito sobre quem somos e sobre quem não devemos ser depois dessa pandemia. Enxergar que precisamos mudar é a maior lição que a Covid-19 nos ensina.

Artigo de Luana Souza.

Até a próxima!
Equipe CN.

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