Setor cultural reinventa-se para sobreviver ao mundo pós Covid-19



Com o isolamento social, muitos produtores culturais tiveram suas apresentações suspensas por tempo indeterminado e cada um vem se adaptando como pode 

Desde o dia 11 de março, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS), decretou pandemia global do novo coronavírus, a vida como conhecíamos foi ficando distante. A fim de tentar conter o inimigo global, que só no Brasil já fez cerca de 23 mil vítimas fatais (até o dia da produção dessa reportagem), os governos adotaram medidas de isolamento social. 

Comércio, igrejas, escolas, universidades e outros estabelecimentos tiveram que encerrar o expediente, por tempo indeterminado. Os cidadãos, por sua vez, precisaram atravessar a porta de suas casas sem saber quando o caminho contrário seria permitido. Na vida pós coronavírus, ficar longe de quem se ama é manifestação de amor. 

ACALENTADORES 

Enquanto as janelas são as novas portas para o exterior e o abraço ainda é dado sobre uma tela, cada um tem buscado aconchego onde pode. Livros, músicas, filmes e séries mostraram-se remédios poderosos durante essa quarentena. Eduardo Sahão, 28, músico e integrante da banda Sr. Bonifácio, explica o papel que a música vem desempenhando nesse momento: “A música, atualmente, está sendo um grande alento nessa fase de isolamento social. Ela acaba sendo uma companhia para as pessoas. E, ao mesmo tempo que ela tem a função de divertir, ela tem, também, a função de ser uma reflexão, de alegrar e fazer a gente pensar”. 

O músico ainda ressalta o reconhecimento que os artistas vêm ganhando. Músicos, escritores, cineastas, atores e outros produtores culturais estão tendo seus trabalhos cada vez mais consumidos. Ainda assim, o sustento da grande parcela deles é incerto. No dia 22 de abril desse ano, os artistas, assim como os técnicos em espetáculos, foram incluídos no recebimento do auxílio emergencial de 600 reais, criado pelo governo, a fim de tentar fornecer uma proteção financeira durante o enfrentamento da pandemia. 

Camila Taari, 38, é professora de técnica vocal, canto popular, teatro musical e vocalista do grupo Aruandê. Ela ressalta a preocupação com o sustento da classe artística, principalmente os locais: “As pessoas estão se suprindo muito da arte, da cultura. Mas percebo que esses artistas estão sendo meio que deixados na mão. Não consigo ver como eles vão se manter daqui para a frente, quanto tempo vai durar esse isolamento, como eles vão conseguir sobreviver. Muita gente vive só do trabalho artístico.” 

Na mesma situação, encontra-se Tiago Marques, conhecido como Palhaço Ritalino. Tiago é artista circense londrinense e formado em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Desde o primeiro dia da quarentena, a preocupação financeira também o acompanha. 

Diante da situação, os profissionais da arte se manifestaram pedindo ajuda aos parlamentares na aprovação do Projeto de Lei 1075/2020, que prevê ações emergenciais para a cultura. A ajuda é fundamental para dar continuidade a vida dos artistas, assim como seus trabalhos. Até o término dessa reportagem, o PL está sendo encaminhado para o Senado Federal. O cenário atual é de incertezas. E, em meio a essa tempestade, cada um vem se reinventando, a fim de buscar seu lugar ao sol. 

RISO COMO REMÉDIO 

Ritalino na apresentação do espetáculo "Melhor show
do undo...na minha opinião" | Foto: reprodução
Adaptação. O Palhaço Ritalino teve que se reinventar para garantir o contato com seu público e buscar alternativas para seu trabalho. Nesse período de isolamento social, ele criou o quadro Quarentena Talk Show, para dar vazão à criatividade e trazer leveza perante as notícias que surgem a cada dia sobre o novo coronavírus. “A minha tentativa com o programa é brincar com o fato de que estamos de quarentena. Mas busco trazer leveza para que as pessoas possam rir um pouco diante de tantas informações sobre a Covid-19”, ele explica. 

Apesar da interação com o público ser diferente da presencial, uma vez que não há a possibilidade de sentir o feedback da plateia, Tiago se preocupa com o roteiro de seus vídeos e se suas piadas serão engraçadas. Para isso, ele as testas com a esposa, que participa do quadro em alguns momentos. “Ela ajuda na produção comigo e faz a contrarregragem. Se eu preciso de uma bandeja, água, café, que é entregue ao apresentador, é o bracinho dela que entra”, comentou.

EXPANSÃO DAS LIVES 

O cenário musical pós COVID-19 sofreu uma inversão de cenários. Se antes os fãs iam até estádios, teatros e parques para ouvirem sua banda favorita, agora é ela que entra na casa de cada um. As lives cresceram como uma alternativa enquanto os shows ‘presenciais’ tiveram de ser suspensos. 

Camila cantando em uma apresentação do
Grupo Aruandê, na Festa Barbada, no Bar Valentino,
dia 24 março 2019 | Foto: Allan Puzzy
A rotina da Camila também mudou. Suas aulas passaram a serem feitas online e todas as apresentações musicais e cênicas tiveram que ser canceladas. “Eu estava com alguns projetos aprovados para esse ano. Com tudo isso, vai ser adiado e ficar para frente. Inclusive a gravação de um disco”, afirmou. 

Nas lives, ela encontrou uma alternativa para continuar o contato com seu público e rever os amigos, mesmo que através de uma tela. Através do instagram do grupo (@aruandeoficial), três lives já foram feitas. Cada uma contou com a presença de um convidado especial para falar sobre cultura popular e música. 

Camila ainda comenta que, para artistas locais, tornar as lives uma atividade rentável não é tarefa fácil. “Não fazemos pelo financeiro, não ganhamos nada com isso. É um horário que tiramos do nosso dia, da nossa semana, que, ás vezes, a gente deixa de fazer uma atividade remunerada. Mas é porque achamos necessário se encontrar, manter o público atualizado, sabendo o que estamos fazendo, propondo”. 

As transmissões ao vivo também fazem parte da nova realidade da banda Senhor Bonifácio. No dia 23 de abril eles fizeram a primeira live profissional, com equipe técnica e patrocinadores. Eduardo Sahão, baixista e tecladista da banda, conta que não foi tarefa fácil. Eles já haviam feito uma live mais simples, acústica, apenas com a câmera ligada. A do dia 23 revelou-se, segundo a banda, trabalhosa. “Foi uma das primeiras vezes que ficamos nervosos para subir no palco”, brinca Eduardo. 

11 mil pessoas acessaram a transmissão, mostrando uma boa recepção do público. Eduardo ainda conta que tiveram uma arrecadação de 118%. Uma quantidade do dinheiro foi destinada ao Lar Anália Franco, além de ser usada para os custos da transmissão e oferecer um pouco mais de oxigênio a equipe. A próxima live está marcada para essa quinta feira (28), às 20h, no canal do Youtube da banda. Uma parte do dinheiro arrecadado será destinada ao Asilo São Vicente de Paulo. 
Integrantes da banda Senhor Bonifácio, da esquerda para a direita, Renan Muliterno,
Marcelo Celligoi, Eduardo Sahão e Vitor Delallo | Foto: Fábio Alcover
LAÇOS ESTREITADOS 

Em momento temporário de confinamento, os consumidores apertam, cada vez mais, seu laço com a música. Para muitas pessoas, o show ser em casa não impede que se vistam como se fossem sair, como comentou Ana Júlia Oliveira, 21. Ela é estudante e sempre teve uma relação muito próxima com a música. Em quarentena, reflete sobre esse consumo: “Depois do coronavírus, o mundo e as coisas não serão mais os mesmos. Os consumidores serão transformados. As lives são alternativas legais, justamente nesse meio de isolamento que vivemos hoje, para termos um sentimento de companhia, um programa para fazer. Vi até algumas pessoas se arrumando para vê-las”. 

Ter pelo menos três ingressos comprados de shows que foram cancelados não impediu Tais Piazetin, 31, de aproveitar as sensações que a música desencadeia. Tais é professora e, devido a pandemia, está trabalhando na modalidade home office. Sua relação com a música sempre foi de proximidade. Ela também canta e toca violão, dentre outros instrumentos. As transmissões, logo, mostram-se como uma boa alternativa: “Já que você não pode ir no show, você vê as lives. O gostoso, também, é que eles (músicos) estão mais soltos, conversam mais, falam sobre suas vidas e brincam”. 

 A rentabilidade dessa nova alternativa é, ainda, um campo a ser explorado. Ela comenta que, para os artistas com carreira já consolidada, mais ‘famosos’, essa pode sim ser um caminho, pincipalmente por meio dos patrocínios e doações. No outro lado da moeda, os artistas locais e aqueles que cantam em bares, casamentos e formaturas terão que explorar novos territórios virtuais. “Eles deverão procurar novas alternativas. Por exemplo, dar aulas online ou montar um canal. Seriam meios gradativos, demorados para dar retorno, ainda assim. Pelo menos, por enquanto, vai ser complicado”. 

NOVO NORMAL 

O novo coronavírus instaurou uma nova realidade. As mudanças estão acontecendo em todos os setores e em todos os lugares do mundo. O setor cultural vem se reinventando na busca de novas alternativas de existência. Sendo assim, o apoio a essas iniciativas tornou-se essencial. Se o consumo aumentou, a relação também deve tender a maior fraternidade. O retorno, mesmo que virtual, vem ajudando os artistas a renovarem seus galões de oxigênio. 

O fim do isolamento social é uma incógnita, assim como o futuro pós-pandemia. Alguns artistas vêm adotando o chapéu virtual, que nada mais é do que a compra de um “ingresso”, através de um valor simbólico. Quem tiver interesse em colaborar pode fazer uma doação, no valor que desejar, na conta disponibilizada por eles através de suas redes sociais. 

Serviço – A Conectados News apoia as iniciativas independentes dos grupos locais. Para conferir o trabalho das fontes que participaram desta reportagem, seguem os links abaixo. 

Palhaço Ritalino – produção no canal do Youtube e no Instagram (@palhaco.ritalino). 
Grupo Aruandê - instagram (@aruandeoficial
Senhor Bonifácio – instagram, facebook e Youtube (@senhorbonifacio)

Reportagem Ana Clara Marçal e Luana Souza

Até a próxima!
Equipe CN.

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